O presidente de direita da Argentina, Javier Milei, está enfrentando a pior crise de sua gestão. E não se trata de suas políticas econômicas que—apesar de uma leve recuperação nas últimas semanas—têm aumentado a pobreza, o desemprego e a população em situação de rua no país. Desta vez, a crise envolve um escândalo com uma memecoin que irritou investidores americanos que apostaram dinheiro no projeto e agora estão criticando o líder estrangeiro nas redes.
Há alguns dias, Milei promoveu uma memecoin nas redes sociais, que rapidamente foi acusada de ser um esquema de pump-and-dump (manipulação de preços seguida de desvalorização). O projeto em questão, um token chamado $LIBRA, disparou de valor depois que Milei fez uma postagem sobre ele na plataforma X, de Elon Musk. O presidente argentino sugeriu que investir na moeda poderia ser uma maneira inovadora de “financiar” pequenas empresas. O ativo atingiu uma capitalização de mercado de US$ 4 bilhões, mas logo despencou, evaporando dezenas de milhões de dólares em investimentos.
Agora, um novo relatório do CoinDesk alega que o criador do projeto $LIBRA, um empresário do setor de criptomoedas chamado Hayden Davis, teria se gabado de ser capaz de “controlar” Milei.
“Eu controlo esse filho da p—”, Davis teria dito em mensagens de texto para uma pessoa não identificada em meados de dezembro, que foram analisadas pelo CoinDesk. Ele supostamente acrescentou: “Eu mando dinheiro para a irmã dele e ele assina tudo o que eu digo e faz o que eu quero.”
Davis, que administra uma empresa chamada Kelsier Ventures, também afirmou que é assessor de Milei e que tem trabalhado “com ele e sua equipe em projetos ainda maiores de tokenização e coisas muito legais na Argentina.” O governo argentino já negou publicamente que Davis tenha qualquer vínculo oficial com a administração.
Acusações de suborno e fraude
O CoinDesk detalhou as alegações da seguinte forma:
“Em mensagens de texto revisadas pelo CoinDesk, Hayden Davis, CEO da Kelsier Ventures, afirmou que poderia ‘controlar’ Milei por meio de pagamentos que vinha fazendo a Karina Milei, uma figura poderosa no governo e irmã do presidente…”
O escritório de Karina Milei não respondeu aos pedidos de comentário, e Davis também não retornou múltiplas solicitações de esclarecimento.
Ainda não está claro se algum dinheiro realmente foi transferido entre Davis e pessoas próximas a Milei antes do lançamento da Libra. No entanto, o CoinDesk aponta que Davis e sua empresa foram os principais beneficiários da valorização meteórica do token. Segundo a investigação, carteiras cripto controladas por Kelsier Ventures lucraram mais de US$ 100 milhões nas primeiras horas do lançamento da Libra, quando o token chegou a valer US$ 5 antes de desabar mais de 95%, destruindo milhões de dólares em investimentos especulativos.
Como resultado do escândalo, Milei agora está sendo investigado pelo Escritório de Combate à Corrupção do governo argentino, sob suspeita de fraude. Além disso, o governo anunciou uma investigação sobre a própria $LIBRA e todas as empresas e indivíduos envolvidos em sua criação e operação.
Milei, Elon Musk e os interesses estrangeiros na Argentina
Javier Milei é muito popular entre a direita global, e Elon Musk é um dos seus apoiadores mais entusiasmados. O presidente argentino se autodeclara um “anarcocapitalista” e suas políticas têm favorecido investidores estrangeiros ricos à custa da população local.
Entre outras medidas, Milei desregulamentou o mercado imobiliário argentino, permitindo que proprietários inflacionassem os preços dos aluguéis. Apesar do apoio da mídia ocidental, essa política levou a um aumento drástico na pobreza e no número de sem-teto, enquanto Milei continua promovendo o que chama de “tratamento de choque” econômico—ou, como ele mesmo descreve, “passar a motosserra” no governo. Muitas dessas políticas foram influenciadas por uma rede libertária americana chamada Atlas.
Se isso soa familiar, é porque ideias semelhantes estão sendo promovidas nos EUA, com Elon Musk defendendo abertamente a destruição do governo federal, nos mesmos moldes do que Milei está fazendo na Argentina. Enquanto isso, Donald Trump está preenchendo instituições financeiras americanas com entusiastas das criptomoedas, pavimentando o caminho para uma economia cada vez mais dependente da finança descentralizada (DeFi)—o que, como este escândalo demonstra, não parece um bom presságio para o futuro econômico.