A palavra “quântico” aparece cada vez mais em notícias sobre tecnologia e ciência. Computadores quânticos, sensores quânticos, criptografia quântica — o termo se espalhou por diferentes áreas, muitas vezes acompanhado de expectativas quase futuristas. Para o físico Paul Davies, essa popularização reflete algo real: uma nova etapa na evolução da física quântica. Segundo ele, estamos entrando na era da chamada “Quantum 2.0”, um período em que cientistas não apenas observam fenômenos quânticos, mas passam a controlá-los diretamente.
O que foi a “Quantum 1.0”
A chamada primeira revolução quântica começou em 1925 com o desenvolvimento da Mecânica quântica.
Essa teoria mudou completamente a forma como entendemos a matéria e a energia. Ela permitiu explicar fenômenos que a física clássica não conseguia descrever, desde o comportamento de partículas subatômicas até processos que ocorrem no interior das estrelas.
Além disso, a mecânica quântica deu origem a tecnologias essenciais do mundo moderno. Entre elas estão:
- lasers
- microchips
- exames de Ressonância Magnética
- energia nuclear
- dispositivos eletrônicos presentes em smartphones
Grande parte da infraestrutura tecnológica atual depende diretamente desses princípios quânticos.
Por esse motivo, a UNESCO declarou 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas, marcando o centenário do surgimento da teoria.
A nova fase: manipular partículas individuais
A chamada Quantum 2.0 representa uma mudança importante.
Na primeira revolução quântica, os cientistas exploravam efeitos quânticos que surgiam naturalmente em materiais e dispositivos.
Agora, pesquisadores estão aprendendo a manipular diretamente partículas individuais, como elétrons ou fótons.
Isso significa controlar propriedades quânticas fundamentais, como:
- Superposição quântica, na qual partículas podem existir em múltiplos estados simultaneamente
- Emaranhamento quântico, que conecta partículas de maneira que o estado de uma afeta instantaneamente a outra
Ao controlar esses fenômenos, cientistas podem codificar informação diretamente nas partículas, criando tecnologias radicalmente novas.
O desafio de ligar o mundo quântico ao cotidiano
Apesar de seu sucesso científico, a mecânica quântica continua sendo uma das teorias mais estranhas da física.
No mundo cotidiano, objetos parecem existir independentemente de serem observados. Uma mesa ou uma cadeira possui propriedades definidas — posição, forma, movimento.
Mas no nível subatômico a situação é diferente.
Uma partícula como um elétron não possui necessariamente propriedades definidas antes de ser medida. Em muitos casos, apenas o ato de observação determina qual estado a partícula assumirá.
Esse paradoxo continua sendo um dos maiores desafios conceituais da física moderna: como conectar o mundo quântico — cheio de probabilidades — ao mundo macroscópico que percebemos como estável.
A possibilidade de uma biologia quântica
Davies também discute no livro o campo emergente da Biologia quântica.
Esse campo investiga se fenômenos quânticos podem desempenhar algum papel em sistemas vivos.
A ideia remonta ao físico Erwin Schrödinger, que em 1943 apresentou uma série de palestras reunidas posteriormente no livro What Is Life?. Ele sugeriu que a física quântica poderia ajudar a explicar propriedades aparentemente extraordinárias da vida.
Hoje, alguns cientistas investigam se processos como superposição ou transferência quântica de informação podem ocorrer em organismos vivos. Ainda assim, Davies mantém certo ceticismo, embora considere a hipótese intrigante.
A relação entre mecânica quântica e inteligência artificial
Davies argumenta que a própria Inteligência Artificial depende indiretamente da física quântica.
Isso porque os microprocessadores e dispositivos eletrônicos que executam algoritmos de IA funcionam graças a princípios quânticos presentes nos semicondutores.
Mas o futuro pode trazer algo ainda mais radical: uma possível IA quântica, baseada em computadores capazes de explorar simultaneamente múltiplos estados quânticos.
Em teoria, sistemas assim poderiam analisar um número gigantesco de possibilidades ao mesmo tempo, algo muito diferente do processamento tradicional.
O que poderia ser a “Quantum 3.0”
Para Davies, o próximo passo poderia envolver uma integração ainda mais profunda entre tecnologia quântica e mente humana.
Ele menciona pesquisas experimentais com sensores magnéticos ultrassensíveis capazes de detectar os minúsculos campos magnéticos produzidos pelo cérebro.
Esses sensores poderiam, no futuro, permitir interfaces diretas entre cérebro humano e computadores quânticos — um cenário que o físico descreve como fascinante e ao mesmo tempo perturbador.
A revolução conceitual da física quântica
Talvez o impacto mais profundo da mecânica quântica não esteja apenas nas tecnologias que ela criou.
Segundo Davies, o verdadeiro choque dessa teoria é filosófico.
Ela sugere que a observação não apenas revela a realidade — em certo sentido, ela ajuda a criá-la.
Mais de um século depois do nascimento da mecânica quântica, ainda não existe consenso completo sobre como interpretar essa ideia.
E isso significa que a revolução quântica — científica e filosófica — ainda está longe de terminar.