Pular para o conteúdo
Tecnologia

Depois do hype, indústria cripto tenta sobreviver parecendo fintech tradicional

Enquanto o entusiasmo com milhares de criptomoedas perde força, empresas do setor começam a se transformar em algo muito diferente do que imaginavam anos atrás.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, o universo cripto vendeu a ideia de uma revolução financeira capaz de substituir bancos, romper fronteiras e mudar completamente a relação das pessoas com o dinheiro. Mas algo começou a mudar nos bastidores da indústria. Em vez de apostar apenas em moedas digitais e promessas de descentralização, plataformas cripto agora correm para se parecer cada vez mais com bancos, corretoras e fintechs tradicionais. E essa transformação pode indicar uma mudança muito maior dentro do setor.

A era do “hype” cripto parece estar chegando ao fim

Depois do hype, indústria cripto tenta sobreviver parecendo fintech tradicional
© Unsplash

Nos últimos anos, a Argentina se tornou um dos mercados mais ativos do mundo no uso de criptomoedas.

Em um cenário marcado por inflação elevada, restrições cambiais e desvalorização constante da moeda local, plataformas digitais cresceram oferecendo alternativas rápidas para dolarização e proteção financeira.

Comprar Bitcoin, guardar stablecoins como USDT e movimentar dólares digitais virou parte da rotina de milhões de usuários.

Mas o contexto econômico começou a mudar.

Com inflação desacelerando, dólar mais estável e menos sensação de emergência financeira, empresas do setor perceberam que o velho modelo baseado apenas em especulação e fuga do peso argentino perdeu força.

E isso obrigou a indústria a procurar novos caminhos.

Segundo o relatório “NEXO DIGITAL CAPITAL SURVEY 2026”, o uso das criptomoedas na Argentina continua extremamente alto: cerca de 74,3% dos investidores argentinos possuem algum ativo digital, percentual superior ao observado nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Mesmo assim, o comportamento dos usuários mudou drasticamente.

A febre das memecoins, tokens desconhecidos e apostas especulativas perdeu espaço. Hoje, segundo executivos do setor, praticamente apenas dois segmentos continuam movimentando demanda significativa: o Bitcoin como reserva de valor e as stablecoins como ferramenta financeira prática.

O restante do mercado perdeu relevância.

As empresas cripto agora querem parecer bancos

Depois do hype, indústria cripto tenta sobreviver parecendo fintech tradicional
© Unsplash

A transformação mais visível da indústria é a aproximação acelerada com o sistema financeiro tradicional.

Exchanges e carteiras digitais deixaram de querer ser apenas plataformas para comprar criptomoedas. Agora, o objetivo é se tornar algo mais amplo: bancos digitais, corretoras globais e plataformas completas de investimento.

A própria Bitget reconheceu que o setor está abandonando a fase de “alternativa paralela” ao sistema financeiro.

Segundo Gracy Chen, CEO da empresa, as fronteiras entre cripto e finanças tradicionais estão desaparecendo rapidamente.

Essa convergência aparece em praticamente todos os lançamentos recentes do setor.

A plataforma Takenos, por exemplo, passou a oferecer ETFs tokenizados ligados ao S&P 500, Nasdaq e ouro diretamente em sua aplicação.

Já a Bitso lançou produtos chamados xStocks, tokens que reproduzem o comportamento de ações americanas como Apple, Nvidia, Tesla e Amazon.

A lógica é simples: se a compra e venda de dólares digitais virou um negócio mais competitivo e menos lucrativo, as empresas precisam aumentar os serviços oferecidos aos usuários.

O foco deixou de ser apenas “comprar cripto”.

Agora, a meta é controlar toda a vida financeira do cliente.

As stablecoins estão virando infraestrutura invisível

Outra mudança importante acontece longe dos olhos do usuário comum.

As stablecoins começam a deixar de ser um “produto” para virar infraestrutura financeira.

Na prática, isso significa que muitas operações digitais já começam a acontecer usando tecnologia blockchain nos bastidores, mesmo que o consumidor quase não perceba.

A fintech Lemon, por exemplo, implementou um sistema em que compras internacionais feitas com cartão Visa podem ser liquidadas diretamente em USDC, uma stablecoin atrelada ao dólar.

O processo substitui mecanismos tradicionais envolvendo conversão em pesos argentinos.

Segundo executivos da empresa, a ideia é utilizar cripto como trilho financeiro invisível para tornar pagamentos mais rápidos e baratos.

A própria Visa começou a se aproximar desse movimento.

Executivos da companhia afirmam que o uso institucional de stablecoins já deixou de ser uma possibilidade futura e passou a fazer parte da realidade do setor financeiro.

Para a indústria, blockchain começa a ser vista menos como revolução ideológica e mais como infraestrutura eficiente.

A nova aposta é transformar tudo em ativo digital

Além dos pagamentos, outro conceito começa a dominar o discurso do setor: tokenização.

A ideia consiste em transformar ativos financeiros tradicionais — ações, fundos, ouro e outros investimentos — em versões digitais negociáveis 24 horas por dia.

Esse movimento muda completamente o foco original do mercado cripto.

Durante anos, o discurso predominante prometia substituir bancos e romper com o sistema financeiro tradicional. Agora, muitas empresas parecem caminhar na direção oposta: integrar-se profundamente a ele.

A Ripio é um exemplo disso.

A empresa lançou recentemente a USDar, uma stablecoin ligada ao dólar MEP argentino em vez do tradicional dólar cripto internacional.

Segundo a companhia, a ideia é criar uma alternativa digital baseada em instrumentos financeiros locais, tentando evitar que o capital digitalizado seja direcionado apenas para ativos americanos.

Nos bastidores, o setor já parece aceitar uma nova realidade: o negócio cripto deixou de ser exclusivamente sobre criptomoedas.

Hoje, as plataformas disputam espaço como ecossistemas financeiros completos, oferecendo contas remuneradas, cartões, investimentos globais, crédito e serviços de pagamento.

E talvez exista uma ironia silenciosa em tudo isso.

Depois de anos prometendo substituir Wall Street e os bancos tradicionais, grande parte da indústria cripto agora parece determinada justamente a se tornar mais parecida com eles.

[Fonte: Forbes]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados