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Ciência

De vilão a esperança: o fungo das tumbas que pode tratar leucemia

Durante décadas, ele foi temido por seu papel em mortes misteriosas em tumbas antigas. Agora, esse mesmo fungo chama atenção por outro motivo: suas moléculas demonstraram alta eficácia contra células cancerígenas. Um novo estudo revela como a ciência pode transformar um suposto veneno em cura promissora.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Conhecido por sua ligação com a chamada “maldição da múmia”, o fungo Aspergillus flavus ganhou fama por estar presente em tumbas onde ocorreram mortes misteriosas. Hoje, a ciência o encara de forma diferente: um grupo de pesquisadores descobriu que suas moléculas podem ser usadas para combater a leucemia com a mesma eficácia de medicamentos já aprovados. Esta reviravolta mostra como a natureza ainda guarda poderosos segredos terapêuticos.

Do medo à esperança: a origem do estudo

No século XX, o A. flavus foi associado a mortes ligadas à tumba de Tutancâmon e à do rei Casimiro IV, na Polônia. Esporos do fungo foram encontrados nos locais e considerados suspeitos. Décadas depois, ele volta à cena — mas agora como aliado da medicina.

Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia identificaram moléculas chamadas RiPPs (peptídeos sintetizados por ribossomos e modificados por enzimas), já conhecidas por seu potencial anticancerígeno. Enquanto bactérias são ricas nesses compostos, nos fungos eles ainda são pouco explorados.

O segredo está nas asperigimicinas

Estudando o genoma do A. flavus, os cientistas descobriram uma proteína fundamental para a produção desses RiPPs. Quando os genes ligados a ela foram desativados, os compostos desapareceram. A equipe, então, isolou quatro novos RiPPs, batizados de asperigimicinas. Duas dessas moléculas mostraram eficácia contra células de leucemia humana, sem necessidade de modificação química adicional.

Ao combiná-las com lipídios, uma das variantes atingiu o mesmo nível de eficácia que drogas como citarabina e daunorrubicina, aprovadas pela FDA. Esse avanço abre novas possibilidades para terapias direcionadas e menos agressivas.

Um gene-porta e uma nova estratégia

Os pesquisadores também identificaram um gene responsável por permitir que os compostos entrem nas células cancerígenas. Descrito como um “portal”, esse gene pode ser influenciado por lipídios — oferecendo assim mais uma ferramenta para o desenvolvimento de medicamentos personalizados e eficientes.

Além disso, as asperigimicinas interferem na divisão celular, mecanismo essencial na progressão do câncer. Curiosamente, elas tiveram pouco ou nenhum efeito sobre outros tipos de células cancerígenas ou micro-organismos, o que indica uma ação altamente específica.

Natureza como aliada da ciência

Os próximos passos envolvem testes em animais. Para os autores, o potencial terapêutico vai além do câncer: este estudo abre portas para uma nova era de medicamentos baseados em fungos.

“A natureza nos oferece uma farmácia espetacular. Cabe a nós decifrá-la”, afirmou a pesquisadora Sherry Gao, principal autora do estudo publicado na Nature Chemical Biology.

Fonte: Gizmodo ES

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