Conhecido por sua ligação com a chamada “maldição da múmia”, o fungo Aspergillus flavus ganhou fama por estar presente em tumbas onde ocorreram mortes misteriosas. Hoje, a ciência o encara de forma diferente: um grupo de pesquisadores descobriu que suas moléculas podem ser usadas para combater a leucemia com a mesma eficácia de medicamentos já aprovados. Esta reviravolta mostra como a natureza ainda guarda poderosos segredos terapêuticos.
Do medo à esperança: a origem do estudo
No século XX, o A. flavus foi associado a mortes ligadas à tumba de Tutancâmon e à do rei Casimiro IV, na Polônia. Esporos do fungo foram encontrados nos locais e considerados suspeitos. Décadas depois, ele volta à cena — mas agora como aliado da medicina.
Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia identificaram moléculas chamadas RiPPs (peptídeos sintetizados por ribossomos e modificados por enzimas), já conhecidas por seu potencial anticancerígeno. Enquanto bactérias são ricas nesses compostos, nos fungos eles ainda são pouco explorados.
O segredo está nas asperigimicinas
Estudando o genoma do A. flavus, os cientistas descobriram uma proteína fundamental para a produção desses RiPPs. Quando os genes ligados a ela foram desativados, os compostos desapareceram. A equipe, então, isolou quatro novos RiPPs, batizados de asperigimicinas. Duas dessas moléculas mostraram eficácia contra células de leucemia humana, sem necessidade de modificação química adicional.
Ao combiná-las com lipídios, uma das variantes atingiu o mesmo nível de eficácia que drogas como citarabina e daunorrubicina, aprovadas pela FDA. Esse avanço abre novas possibilidades para terapias direcionadas e menos agressivas.
Um gene-porta e uma nova estratégia
Os pesquisadores também identificaram um gene responsável por permitir que os compostos entrem nas células cancerígenas. Descrito como um “portal”, esse gene pode ser influenciado por lipídios — oferecendo assim mais uma ferramenta para o desenvolvimento de medicamentos personalizados e eficientes.
Além disso, as asperigimicinas interferem na divisão celular, mecanismo essencial na progressão do câncer. Curiosamente, elas tiveram pouco ou nenhum efeito sobre outros tipos de células cancerígenas ou micro-organismos, o que indica uma ação altamente específica.
Natureza como aliada da ciência
Os próximos passos envolvem testes em animais. Para os autores, o potencial terapêutico vai além do câncer: este estudo abre portas para uma nova era de medicamentos baseados em fungos.
“A natureza nos oferece uma farmácia espetacular. Cabe a nós decifrá-la”, afirmou a pesquisadora Sherry Gao, principal autora do estudo publicado na Nature Chemical Biology.
Fonte: Gizmodo ES