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Ciência

Degelo na Antártica revela corpo de meteorologista desaparecido há 66 anos

Restos mortais de Dennis Bell, que caiu em uma fenda glacial em 1959, foram encontrados após o recuo de uma geleira. A descoberta encerra um mistério de décadas e resgata um capítulo trágico da história da pesquisa polar.
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Tempo de leitura: 2 minutos

O que começou como uma missão científica de rotina, em pleno inverno antártico de 1959, terminou em tragédia. O jovem meteorologista britânico Dennis Bell, então com 25 anos, desapareceu diante dos olhos de um colega ao cair em uma fenda glacial. Agora, mais de seis décadas depois, o recuo de uma geleira permitiu que seus restos mortais fossem encontrados.

A descoberta após o recuo do gelo

Em janeiro deste ano, integrantes da Estação Antártica Polonesa Henryk Arctowski localizaram restos humanos na Geleira Ecology, na Ilha King George. A informação foi confirmada pelo British Antarctic Survey (BAS). Um mês depois, uma equipe composta por arqueólogo, geomorfólogo, antropólogo e glaciologista retornou ao local para realizar um levantamento detalhado.

A identificação foi feita pela geneticista forense Denise Syndercombe Court, do King’s College London, por meio de testes de DNA que coincidiram com amostras de familiares de Bell. “Ficamos chocados e surpresos ao receber a notícia, depois de 66 anos”, declarou David Bell, irmão do meteorologista.

A tragédia de 1959

Bell havia ingressado no Falkland Islands Dependencies Survey — precursor do BAS — em 1958. Em 26 de julho de 1959, ele e três colegas realizavam trabalho de campo com trenós puxados por cães, na Baía do Almirantado, Ilha King George. O grupo se dividiu em duplas, e Bell avançou à frente sem esquis para incentivar os cães cansados.

Nesse momento, caiu em uma fenda escondida sob o gelo. Sobreviveu à primeira queda e recebeu uma corda lançada pelo topógrafo Jeff Stokes. Porém, ao amarrá-la apenas no cinto e não no corpo, ficou preso na borda ao ser puxado. O cinto se rompeu, e ele despencou novamente — desta vez, fatalmente.

O episódio foi descrito pelo ex-diretor do BAS, Vivian Fuchs, como “uma fatalidade particularmente trágica, que parecia não precisar ter acontecido, tornando-se duplamente dolorosa”.

Objetos preservados pelo gelo

Além dos restos mortais, foram encontrados mais de 200 objetos pessoais, entre eles peças de rádio, bastões de esqui, lanterna, relógio gravado e uma faca sueca Mora. Esses artefatos ajudam a reconstruir a cena e o contexto da missão científica.

Bell é homenageado até hoje: um ponto geográfico da Ilha King George leva seu nome — Bell Point.

Encerrando um mistério

Para Jane Francis, diretora do BAS, a descoberta traz não apenas respostas, mas também significado histórico. “Mesmo perdido em 1959, sua memória permaneceu entre colegas e na herança da pesquisa polar. Esta descoberta encerra um mistério de décadas e nos lembra das histórias humanas que fazem parte da ciência na Antártica”, afirmou.

O achado reforça a ligação entre a história da exploração polar e os desafios extremos enfrentados por pesquisadores no continente mais remoto e inóspito do planeta.

 

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