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Ciência

Depois de 50 anos de buscas, astrônomos finalmente encontram o vento do buraco negro da Via Láctea — e ele estava escondido bem diante de nós

Uma imagem sem precedentes do centro da Via Láctea revelou pela primeira vez evidências diretas de um poderoso vento soprando a partir de Sagitário A*, o buraco negro supermassivo da nossa galáxia. A descoberta resolve um mistério que intrigava astrônomos há décadas e abre uma nova janela para entender como esses gigantes cósmicos interagem com o universo ao seu redor.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, os cientistas tinham certeza de que o buraco negro supermassivo localizado no coração da Via Láctea deveria estar expelindo matéria para o espaço. Afinal, modelos teóricos e observações de outras galáxias mostram que esses objetos não apenas engolem material: eles também lançam parte dele para longe em forma de ventos extremamente energéticos ou jatos relativísticos.

O problema era que ninguém conseguia encontrar evidências claras desse fenômeno em Sagitário A* (Sgr A*), o buraco negro situado no centro da nossa galáxia.

Agora, após quase meio século de buscas, uma equipe da Universidade Northwestern finalmente encontrou a prova que faltava. Utilizando a imagem mais detalhada já produzida da região central da Via Láctea, os pesquisadores detectaram sinais inequívocos de um vento quente e energético saindo de Sgr A*.

O estudo foi publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters.

O mistério do buraco negro silencioso

Buracos Negros2
© AlexAntropov86 – Pixabay

Os buracos negros costumam ser associados à ideia de devorar tudo ao seu redor. Embora isso seja parcialmente verdade, a realidade é mais complexa.

À medida que gás e poeira giram em espiral rumo ao horizonte de eventos, o material acelera a velocidades próximas à da luz. Nesse processo, enormes quantidades de energia são liberadas.

Parte dessa energia aquece o material a temperaturas extremas e pode expulsá-lo novamente para o espaço na forma de ventos ou jatos.

Esse comportamento já havia sido observado em diversos núcleos galácticos ativos. O problema é que Sagitário A* parece estar em uma fase relativamente tranquila de sua existência, o que torna seus sinais muito mais difíceis de detectar.

Sem evidências de um vento ativo, o buraco negro da Via Láctea parecia uma exceção desconfortável para os modelos teóricos atuais.

Cinco anos observando o coração da galáxia

A dificuldade não está apenas no comportamento discreto de Sgr A*.

Entre a Terra e o centro galáctico existe uma enorme quantidade de gás, poeira e estruturas ionizadas que dificultam a observação direta da região.

Para superar esse obstáculo, os pesquisadores utilizaram cinco anos de observações realizadas pelo conjunto de radiotelescópios do Atacama Large Millimeter/Submillimeter Array (ALMA), localizado no deserto do Atacama, no Chile.

O objetivo era mapear o gás molecular frio existente nas proximidades do buraco negro.

Após aplicar uma nova técnica de calibração capaz de remover interferências provocadas pelas emissões extremamente brilhantes de Sgr A*, os cientistas produziram uma imagem sem precedentes da região.

O resultado impressiona: o novo mapa é cerca de 100 vezes mais profundo e 80 vezes mais detalhado do que os anteriores.

A cavidade que revelou a presença do vento

Astrônomos encontram algo saindo de um buraco negro em velocidade tão absurda que desafia comparações terrestres
© NASA

Foi justamente nesse nível de detalhe que surgiu a grande descoberta.

Os pesquisadores identificaram uma enorme cavidade em formato de cone praticamente vazia de gás molecular frio. A estrutura possui quase um parsec de extensão — pouco mais de três anos-luz — e cerca de 45 graus de abertura.

Segundo os autores, existe uma explicação simples para essa ausência de material.

Um fluxo quente e energético proveniente do buraco negro estaria atravessando a região, empurrando o gás frio para longe ou aquecendo-o a temperaturas tão elevadas que ele deixa de ser visível nos comprimentos de onda observados.

Em outras palavras, os cientistas não observaram diretamente o vento, mas identificaram sua “assinatura” esculpida no ambiente ao redor.

Uma segunda evidência reforçou a descoberta

Mesmo diante do resultado, os pesquisadores decidiram agir com cautela.

Antes de anunciar a resolução de um dos mistérios mais antigos da astronomia moderna, eles buscaram confirmações independentes.

Foi então que encontraram um detalhe decisivo.

Dados do observatório espacial de raios X Chandra, da NASA, já haviam detectado emissões intensas exatamente na mesma região onde o ALMA revelou a cavidade cônica.

A coincidência entre as duas observações fortaleceu enormemente a interpretação.

As áreas onde faltava gás frio correspondiam precisamente às regiões onde o Chandra registrava emissões de alta energia.

Para os pesquisadores, essa sobreposição tornou extremamente improvável que a estrutura observada fosse apenas um artefato ou erro de processamento.

O que isso muda para a astronomia

Os cientistas estimam que esse vento esteja ativo há pelo menos 20 mil anos.

Mais importante do que isso, a descoberta confirma que Sagitário A* se comporta exatamente como os modelos preveem para um buraco negro supermassivo.

Isso significa que o centro da Via Láctea não é uma exceção cósmica. Pelo contrário: ele segue as mesmas leis físicas observadas em outras galáxias.

A descoberta também oferece uma oportunidade rara. Como Sgr A* está atualmente em um estado relativamente calmo, os astrônomos poderão estudar como buracos negros influenciam seus arredores mesmo quando não estão em fases explosivas de atividade.

Depois de décadas procurando um vento invisível, os cientistas finalmente encontraram a prova de que o coração da nossa galáxia continua soprando energia para o cosmos — silenciosamente, mas sem parar.

 

[ Fonte: DW ]

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