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Ciência

Mudanças já estão alterando a rotação da Terra — e os cientistas descobriram por que isso está acelerando

Um fenômeno ligado às mudanças climáticas está provocando um efeito quase imperceptível no planeta, mas suficiente para chamar a atenção da comunidade científica e levantar novas perguntas sobre o futuro da Terra.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando pensamos nos impactos do aquecimento global, normalmente lembramos do aumento do nível do mar, das ondas de calor e do derretimento das geleiras. No entanto, pesquisadores descobriram que essas transformações podem estar influenciando algo ainda mais surpreendente: a velocidade com que a Terra gira. Embora o efeito seja extremamente pequeno e impossível de ser percebido no dia a dia, ele revela como alterações ambientais podem atingir processos fundamentais do funcionamento do planeta.

O derretimento do gelo está produzindo um efeito inesperado

Durante décadas, cientistas acompanharam a perda acelerada de gelo na Groenlândia, na Antártida e em diversas cadeias de montanhas ao redor do mundo. Grande parte dessa água acaba chegando aos oceanos e se espalha por regiões mais afastadas dos polos, modificando lentamente a distribuição de massa do planeta.

Pode parecer um detalhe sem importância, mas a física mostra que essa redistribuição influencia diretamente a rotação terrestre. Um exemplo simples ajuda a entender: quando um patinador artístico gira com os braços junto ao corpo, ele acelera. Ao abrir os braços, sua velocidade diminui porque a massa passa a ficar mais distante do eixo de rotação.

Com a Terra acontece algo semelhante. Conforme a água proveniente do degelo se desloca para outras regiões, o planeta passa a girar ligeiramente mais devagar. O resultado é um aumento extremamente pequeno na duração dos dias.

Segundo um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth, essa desaceleração vem ocorrendo em um ritmo que se destaca quando comparado às mudanças climáticas registradas ao longo dos últimos 3,6 milhões de anos. Entre 2000 e 2020, os pesquisadores calcularam que esse processo correspondeu a uma tendência de aumento de aproximadamente 1,33 milissegundo por século na duração do dia.

Embora esse número seja minúsculo para a vida cotidiana, ele representa uma evidência de que as mudanças climáticas estão produzindo efeitos muito além daqueles normalmente associados ao aquecimento global.

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© Magnific

Como os cientistas reconstruíram milhões de anos da história da Terra

Ninguém poderia medir diretamente quanto durava um dia há milhões de anos. Para superar esse desafio, os pesquisadores recorreram a registros preservados em fósseis microscópicos conhecidos como foraminíferos bentônicos.

Esses organismos marinhos formam pequenas conchas de carbonato de cálcio que armazenam informações sobre a temperatura dos oceanos e o volume de gelo existente em diferentes períodos da história do planeta. Com esses dados, foi possível estimar como o nível do mar variou ao longo do tempo e de que maneira essas mudanças alteraram a distribuição da massa terrestre.

Os cientistas também utilizaram modelos computacionais baseados em princípios físicos e técnicas modernas de aprendizado de máquina para reduzir as incertezas dessas reconstruções. O objetivo não era medir diretamente a duração dos dias antigos, mas calcular como o clima poderia ter influenciado a rotação terrestre em diferentes épocas.

É importante destacar que o clima não é o único fator capaz de alterar a velocidade de rotação da Terra. Fenômenos como terremotos, correntes oceânicas, circulação atmosférica e movimentos internos do planeta também provocam pequenas variações ao longo do tempo.

Por que esse fenômeno importa para o futuro

Apesar da desaceleração observada, ninguém perceberá dias mais longos no relógio. As diferenças envolvem apenas frações de milissegundo, insuficientes para alterar a rotina das pessoas.

Mesmo assim, esses pequenos desvios são relevantes para sistemas que exigem extrema precisão. Satélites, missões espaciais, observatórios astronômicos e tecnologias de posicionamento global dependem de cálculos extremamente exatos da orientação e da velocidade de rotação da Terra.

Os pesquisadores também lembram que existe outro fenômeno natural responsável por desacelerar o planeta: a interação gravitacional com a Lua. Ao longo de bilhões de anos, esse processo fez os dias se tornarem gradualmente mais longos. No entanto, os modelos indicam que, caso as emissões de gases de efeito estufa permaneçam elevadas, a influência das mudanças climáticas poderá ganhar cada vez mais importância nas próximas décadas.

Mais do que representar um novo risco isolado, esse efeito funciona como um indicador extremamente sensível da dimensão das transformações ambientais provocadas pela atividade humana. Em outras palavras, o aquecimento global já não modifica apenas o clima e os oceanos: seus impactos alcançam processos fundamentais do funcionamento do próprio planeta.

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