Em 2021, Mark Zuckerberg anunciou que o futuro da humanidade seria o metaverso. Investiu bilhões, rebatizou sua empresa e prometeu uma nova era digital. O projeto fracassou. Agora, ele surge com uma nova promessa: liderar o desenvolvimento da inteligência artificial superinteligente. Só que, desta vez, os riscos não são virtuais — são reais, profundos e globais.
Do metaverso ao esquecimento
A aposta de Zuckerberg no metaverso foi, na época, ousada. Em um vídeo bem produzido, ele anunciou que o Facebook passaria a se chamar Meta, e que a nova missão seria construir um espaço digital imersivo onde viveríamos como avatares em 3D. Os recursos não faltaram: só em 2022, a Meta investiu quase US$ 20 bilhões na divisão Reality Labs.
Mas a visão nunca se concretizou. A plataforma Horizon Worlds não atraiu usuários, os óculos de realidade virtual eram pesados e desconfortáveis, e os propósitos de uso, confusos. O metaverso não pegou. Zuckerberg vendeu uma ideia futurista que rapidamente se tornou obsoleta — e cara.
A nova aposta: inteligência artificial geral
Agora, Zuckerberg voltou os olhos para o novo grande filão da tecnologia: a inteligência artificial geral (AGI, na sigla em inglês), que representa um nível de IA capaz de superar a inteligência humana em quase todas as tarefas. O conceito, que já foi ficção científica, está se tornando realidade.
Mas, ao contrário do que ele tenta sugerir, a Meta está longe da liderança. OpenAI, Google (com o Gemini) e empresas chinesas como DeepSeek estão à frente em termos de inovação. Os modelos LLaMA da Meta são respeitados, mas não revolucionários. O maior diferencial da empresa até agora foi tornar seus modelos de linguagem abertos ao público.
Comprando talentos, tentando comprar o futuro
Ciente da defasagem, Zuckerberg iniciou uma campanha agressiva para atrair os melhores talentos da área de IA. De acordo com o CEO da OpenAI, Sam Altman, a Meta vem oferecendo salários de até US$ 100 milhões para especialistas do setor. A empresa já contratou nomes de peso como Alexandr Wang (Scale AI), Nat Friedman (ex-GitHub), e ex-membros da própria OpenAI.
Mais do que esconder essa ofensiva, Zuckerberg está divulgando com orgulho. Em um memorando interno, anunciou a criação do Meta Superintelligence Labs, com a missão de desenvolver uma IA pessoal capaz de organizar agendas, tomar decisões e funcionar como uma “extensão do cérebro” humano. E ele garante: está só começando a contratar.
Zuckerberg é mesmo o rosto certo para essa revolução?
A dúvida persiste: por que confiar a revolução da IA a alguém que já vendeu ilusões tecnológicas no passado? O mesmo executivo que tentou nos convencer de que avatares sem pernas em um mundo digital seriam nosso destino agora diz que está preparado para guiar a humanidade rumo à era da superinteligência.
Zuckerberg não é um visionário de IA. É um competidor implacável, que tenta comprar o topo da próxima tendência. Quando não conseguiu comprar o TikTok, clonou os Reels. Quando o Snapchat recusou ser adquirido, copiou os Stories. Agora, aplica a mesma fórmula na inteligência artificial: contrata os melhores, cria um discurso promissor e tenta apagar o histórico recente de fracassos.
O verdadeiro sinal de alerta
O movimento da Meta revela mais do que uma ambição tecnológica: ele mostra que os gigantes da tecnologia não querem apenas desenvolver IA — querem controlá-la. Zuckerberg não está apenas tentando liderar a corrida pela superinteligência; ele quer definir quem pode participar e sob quais regras.
E talvez esse seja o motivo mais urgente para prestar atenção. Não por acreditar que ele será o arquiteto da próxima revolução, mas porque ele está tentando moldar, à sua maneira, o mundo que vem pela frente.