Um rombo bilionário exposto por nova ferramenta da CNSeg
A Confederação Nacional das Seguradoras apresentou o Radar de Eventos Climáticos, uma plataforma criada para medir e entender os impactos financeiros dos desastres extremos. O presidente da entidade, Dyogo Oliveira, revelou o dado mais assustador: são R$ 60 bilhões por ano em danos provocados por desastres climáticos — número repetido ao longo de três anos consecutivos.
Desse valor todo, apenas 15% foi coberto por seguros. O restante? Cai direto no colo do poder público e da população. É esse tipo de cenário que alimenta o debate da COP30, centrado justamente no financiamento climático — e, como Dyogo disse, “não tem financiamento sem seguro”.
O Radar de Eventos Climáticos chega como uma ferramenta fundamental para calcular melhor o risco e ajustar preços de seguro catástrofe, uma modalidade que o setor tenta viabilizar nacionalmente. A ideia é parecida com o modelo de bônus de seguro de carro: quanto maior o risco climático de uma região, mais preciso (e justo) o cálculo do prêmio.
E, num país onde apenas 15% das residências têm seguro — e menos de 5% das áreas agrícolas contam com proteção — a lacuna é enorme.
Por que o seguro virou peça-chave da COP30

Dyogo reforçou que, na ausência de um bom sistema de seguro catástrofe, o orçamento público precisa pagar a conta. Outros países já criaram mecanismos robustos para lidar com perdas de desastres climáticos, mas o Brasil ainda engatinha.
“Os eventos extremos, como o que vimos no Paraná, mostram que isso não é previsão — é realidade”, afirmou. O alerta não é só climático, mas também econômico: sem instrumentos de proteção, investimentos verdes não avançam, e financiadores internacionais perdem confiança.
A COP30, marcada pela necessidade de implementação — mais ação, menos promessa — deve colocar o tema definitivamente na vitrine. E repetir o recado quantas vezes for preciso: desastres climáticos não são exceção. Eles já fazem parte do dia a dia do país
O papel dos bancos na nova economia verde
O presidente do Conselho da Febraban, Carlos Trabuco, destacou que o sistema financeiro já movimenta R$ 450 bilhões em crédito voltado à economia verde — cerca de 21% de todas as linhas dos bancos brasileiros.
Trabuco chamou atenção para a vantagem competitiva do país: matriz energética limpa, biodiversidade abundante e milhões de hectares de terras degradadas que podem virar trunfo econômico. Mas deixou um alerta ambiental forte: a imensa mancha de lixo no Oceano Pacífico — equivalente ao tamanho da Amazônia — simboliza o impacto direto da ação humana.
“Se 95% do nosso corpo é água, a preservação dos recursos hídricos é urgente”, disse. E, mais uma vez, puxou o setor financeiro para o centro do debate.
Brasil na dianteira dos recursos naturais — mas precisa acelerar
Carlos da Costa André, da Anbima, reforçou o papel decisivo dos bancos na transição do mercado de carbono e no financiamento das cadeias verdes. Ele lembrou algo que outros países já perceberam: poucos lugares no mundo têm tanta biodiversidade e tantas fontes renováveis quanto o Brasil.
Mas, para transformar essa vantagem em liderança global, será necessário algo mais que discursos de cúpula:
- Ambiente macroeconômico estável
- Regras claras para investimentos verdes
- Participação conjunta entre governo e iniciativa privada
Segundo ele, a COP30 marca o início da fase de execução — e não apenas de negociação.
A palavra de ordem é implementação: criar mecanismos, aprovar regulações, tirar projetos do papel. E, claro, incluir o seguro catástrofe no pacote para proteger investimentos e incentivar novas operações.
Governo planeja novo leilão do Eco Invest Brasil
A secretária de Relações Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, destacou que o Brasil reforçou sua agenda multilateral ao sediar o G20 e outros encontros que antecederam a COP30. Esses diálogos colocaram, no centro das discussões, a necessidade de ampliar parcerias entre o setor público e privado — uma demanda que cresce à medida que os desastres climáticos se intensificam.
Ela adiantou que o governo prepara um novo leilão do Eco Invest Brasil, programa que usa financiamento misto (blended finance) para reduzir o risco de projetos sustentáveis. É mais um movimento para tentar destravar investimentos e mostrar que o país está disposto a avançar.
Os números não deixam dúvidas: os desastres climáticos já custam caro ao Brasil — e a conta só aumenta. Entender esse cenário, investir em prevenção e estruturar um sistema robusto de seguro catástrofe é fundamental para atrair recursos e proteger comunidades. À medida que a COP30 se aproxima, fica cada vez mais claro que o país está diante de uma escolha urgente: agir agora ou pagar um preço ainda maior no futuro.
[Fonte: Correio Braziliense]