Pesquisadores anunciaram uma descoberta intrigante envolvendo bonobos — parentes próximos dos humanos. A partir de centenas de horas de gravações em uma reserva no Congo, cientistas identificaram sinais de que esses primatas podem combinar sons de maneira semelhante ao que fazemos com as palavras. A revelação levanta questões importantes sobre o surgimento da linguagem e desafia antigos paradigmas científicos.
Composição sonora com sentido: o que está por trás da descoberta

O estudo, publicado na revista Science, foi conduzido por cientistas da Universidade de Zurique e da Universidade de Harvard. A equipe analisou mais de 400 horas de vocalizações na Reserva de Bonobos de Kokolopori, na República Democrática do Congo. A premissa central do estudo é a chamada “composicionalidade” — a habilidade de juntar unidades sonoras com significados próprios para criar novas mensagens.
Essa capacidade é considerada uma das bases da linguagem humana. Segundo o pesquisador Simon Townsend, trata-se do motor da criatividade linguística. Até então, não havia provas claras desse fenômeno em outras espécies, embora estudos anteriores com chimpanzés já tivessem sugerido algo semelhante.
Na pesquisa com bonobos, os cientistas gravaram 567 chamados isolados e 425 combinações sonoras. Cada vocalização foi classificada de acordo com o comportamento observado no momento da emissão. Utilizando métodos matemáticos parecidos com os aplicados em inteligência artificial, os pesquisadores conseguiram mapear as relações entre os sons.
Quando a combinação muda o significado
A maioria das combinações analisadas apresentava significados próximos aos sons individuais. No entanto, quatro pares se destacaram por formarem algo novo — o conjunto não correspondia à simples soma dos significados originais. Um exemplo envolvia o uso de um grito agudo, normalmente associado à tentativa de chamar atenção à distância, unido a um grito grave, ligado a fortes reações emocionais. Juntos, formavam um sinal que sugeria algo diferente: uma situação urgente que precisava de resposta imediata.
Esses indícios reforçam a ideia de que os bonobos podem, de fato, compartilhar um traço essencial da linguagem humana — mesmo que de forma ainda rudimentar.
Divisão entre entusiasmo e ceticismo
A reação à descoberta foi imediata. Para a primatologista Federica Amici, da Universidade de Leipzig, o estudo oferece uma nova perspectiva sobre a comunicação animal. Segundo ela, os limites entre humanos e outros primatas parecem ser muito mais sutis do que se acreditava.
Mas nem todos concordam. O neurobiologista Johan Bolhuis, da Universidade de Utrecht, vê os dados com cautela. Ele afirma que, embora interessantes, os padrões encontrados ainda estão distantes da complexidade sintática que define a linguagem humana. Para ele, ainda não é possível afirmar que estamos diante de um verdadeiro precursor da fala.
Independentemente das divergências, a pesquisa levanta uma questão fascinante: será que a origem da linguagem é mais antiga — e mais compartilhada — do que imaginávamos? O estudo com os bonobos pode ser apenas o começo de uma nova maneira de entender como, afinal, começamos a falar.
[Fonte: Olhar digital]