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Ciência

Descoberta no Brasil revela pistas de impacto de meteorito há milhões de anos

Cientistas identificaram um enorme campo de cristais naturais no Brasil que pode ter se formado após o impacto de um meteorito antigo. A descoberta revela pistas fascinantes sobre a história geológica da Terra.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Ao longo da história do planeta, impactos de meteoritos deixaram marcas profundas na superfície da Terra. Alguns desses eventos moldaram paisagens inteiras e espalharam materiais raros por milhares de quilômetros. Agora, uma descoberta feita no Brasil está chamando a atenção da comunidade científica internacional. Pesquisadores identificaram um vasto campo de cristais naturais que pode ter surgido após um impacto colossal ocorrido há milhões de anos — mas uma peça fundamental desse quebra-cabeça ainda permanece desaparecida.

Um campo de cristais raro que cobre centenas de quilômetros

Pesquisadores descobriram no Brasil um imenso campo de tectitas, um tipo raro de cristal natural que costuma surgir após impactos de meteoritos.

Esses cristais são formados quando um objeto espacial atinge a superfície da Terra com enorme energia, derretendo rochas do solo e lançando material incandescente para a atmosfera.

Ao esfriar durante o voo e retornar ao solo, essas gotas fundidas solidificam e se transformam em pequenos fragmentos vítreos.

No caso brasileiro, o campo recém-identificado pode ter sido criado após um impacto ocorrido há cerca de 6,3 milhões de anos, no final do período geológico conhecido como Mioceno.

O mais impressionante é a dimensão do fenômeno.

Os fragmentos de cristal foram encontrados ao longo de uma área que pode chegar a aproximadamente 900 quilômetros de extensão, tornando o campo um dos mais amplos já identificados na América do Sul.

Até hoje, apenas cinco grandes campos de tectitas haviam sido identificados em todo o planeta.

Entre eles estão regiões da:

  • Australásia
  • Europa Central
  • Costa do Marfim
  • América do Norte
  • Belize

A descoberta brasileira acrescenta uma nova peça importante à história dos impactos de meteoritos na Terra.

O que são as tectitas e como elas se formam

As tectitas surgem em circunstâncias extremamente específicas.

Quando um meteorito de grande porte colide com o planeta, a energia liberada pode ser suficiente para derreter rochas da superfície terrestre.

Esse material fundido é lançado para a atmosfera em forma de pequenas gotas incandescentes.

Durante esse processo, essas gotas podem assumir diferentes formatos, como:

  • pequenas esferas
  • estruturas em forma de lágrima
  • formas semelhantes a sinos

Enquanto viajam pela atmosfera, essas partículas começam a esfriar e endurecer.

Depois, caem novamente na superfície terrestre, formando campos espalhados de fragmentos vítreos.

Os cientistas classificam esses materiais como tectitas devido às suas características químicas e físicas específicas.

No caso do campo brasileiro, os fragmentos receberam um nome próprio.

Eles foram batizados de geraisitas, em referência ao estado de Minas Gerais, onde os primeiros exemplares foram encontrados.

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© Álvaro Penteado Crósta/IG-UNICAMP/Agencia FAPESP

A descoberta das “geraisitas” no Brasil

Os primeiros fragmentos foram identificados em três municípios do norte de Minas Gerais:

  • Taiobeiras
  • Curral de Dentro
  • São João do Paraíso

Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que o campo tinha cerca de 90 quilômetros de extensão.

No entanto, após a divulgação do estudo inicial, novos relatos surgiram.

Fragmentos semelhantes foram encontrados também nos estados da Bahia e do Piauí.

Essas novas evidências ampliaram drasticamente a área estimada do campo de tectitas.

Segundo o geólogo Álvaro Crósta, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), esse crescimento da área descoberta é consistente com o que ocorre em outros campos de tectitas ao redor do mundo.

Os fragmentos coletados variam entre 1 e 85 gramas, podendo chegar a cerca de cinco centímetros de tamanho.

Embora pareçam negros à primeira vista, quando observados sob luz intensa revelam um tom acinzentado ou esverdeado translúcido.

Do ponto de vista químico, as geraisitas são compostas principalmente por sílica, com quantidades elevadas de óxidos de sódio e potássio.

Os pesquisadores também encontraram lechatelierita, uma forma de sílica vítrea formada em temperaturas extremamente altas — típica de impactos de meteoritos.

Outro detalhe importante está no teor de água.

As análises indicaram que os fragmentos contêm entre 71 e 107 partes por milhão de água, muito menos do que materiais semelhantes de origem vulcânica.

Essa característica foi um dos critérios fundamentais para confirmar que os cristais eram realmente tectitas.

O grande mistério: onde está o cráter do impacto

Apesar das fortes evidências de um impacto meteorítico, ainda existe um enigma central na pesquisa.

Os cientistas ainda não encontraram o cráter que teria originado as geraisitas.

Isso pode parecer surpreendente, mas não é algo incomum.

Dos vários campos de tectitas conhecidos no planeta, apenas três foram definitivamente associados a um cráter específico.

Os pesquisadores acreditam que o impacto responsável pelas geraisitas pode ter ocorrido na região conhecida como Cráton do São Francisco, uma antiga formação geológica localizada no leste da América do Sul.

Para confirmar essa hipótese, serão necessários estudos adicionais.

Os cientistas pretendem utilizar técnicas de análise geológica e geofísica para buscar estruturas subterrâneas que possam indicar o local exato do impacto.

Se confirmado, o evento ajudará a reconstruir um capítulo fascinante da história geológica da Terra — e revelar como um impacto cósmico ocorrido há milhões de anos espalhou cristais naturais por uma vasta região do Brasil.

Fonte: Gizmodo ES

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