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Ciência

Dois astronautas chineses passaram seis horas fora da Tiangong. Não era um experimento científico: eles reforçavam a estação contra um inimigo invisível

A lixo espacial se tornou uma das maiores ameaças para qualquer missão em órbita baixa. Em sua última caminhada espacial, dois astronautas da missão Shenzhou-20 instalaram um sistema de proteção na estação Tiangong para resistir a impactos que podem ser letais. A operação lembra as estratégias usadas na Estação Espacial Internacional (ISS), mas agora em um ambiente orbital muito mais saturado por fragmentos.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Uma caminhada para proteger, não para explorar

A saída para o espaço aconteceu em 25 de setembro, às 19h45 (horário de Pequim). Wang Jie foi o primeiro a deixar o módulo Wentian, seguido por Chen Zhongrui. Durante seis horas, os dois trabalharam com o apoio do braço robótico da estação e a supervisão de Chen Dong do interior.

Diferente de outras missões, o objetivo não era realizar experimentos nem instalar novos instrumentos científicos, e sim reforçar a estrutura da Tiangong contra um dos riscos mais silenciosos do espaço: os restos de satélites e foguetes que orbitam a mais de 27 mil km/h. Em órbita baixa, até mesmo uma partícula metálica minúscula pode atravessar uma escotilha.

A caminhada incluiu a instalação de blindagens adicionais nas áreas mais expostas e uma inspeção completa das estruturas externas.

Escudos contra um enxame invisível

Dois astronautas chineses passaram seis horas fora da Tiangong. Não era um experimento científico: eles reforçavam a estação contra um inimigo invisível
© Xinhua / Jin Liwang.

O dispositivo instalado pelos astronautas atua como um escudo contra fragmentos orbitais, projetado para absorver impactos e minimizar danos em caso de colisão. Essa solução faz parte da estratégia da China desde a concepção da Tiangong: integrar proteções estruturais em uma era de saturação orbital.

A quantidade de lixo espacial só cresce. Restos de lançamentos, pedaços de foguetes, fragmentos de satélites destruídos… cada novo objeto aumenta o risco de colisões em cadeia. Em um complexo como a Tiangong, habitado continuamente desde 2022, garantir a segurança começa por se proteger contra esse enxame invisível.

Comparações com a ISS são inevitáveis

Dois astronautas chineses passaram seis horas fora da Tiangong. Não era um experimento científico: eles reforçavam a estação contra um inimigo invisível
© Xinhua/ Li Minggang.

A referência mais próxima é a Estação Espacial Internacional (ISS). Desde o fim dos anos 1990, a ISS conta com escudos anti-MMOD (Micrometeoróides e Detritos Orbitais). São barreiras do tipo Whipple ou Stuffed Whipple, camadas sobrepostas que dispersam a energia do impacto antes que alcance o casco pressurizado.

A diferença é que a ISS foi projetada em um momento em que a órbita estava menos congestionada. Suas proteções foram sendo adicionadas e reforçadas ao longo dos anos. Já a Tiangong nasceu em um cenário em que o lixo espacial já era um problema global. Por isso, seus escudos fazem parte da estrutura desde o início — e agora são reforçados como parte de uma estratégia contínua de sobrevivência.

Uma ameaça que só tende a crescer

Cada novo lançamento — seja de satélite ou foguete — adiciona fragmentos ao cinturão de detritos que envolve a Terra. À medida que o tráfego orbital aumenta, o risco também cresce. Para a China, reforçar a Tiangong não é uma resposta pontual, e sim um passo necessário para manter em operação um laboratório espacial que pretende se tornar a base mais estável de pesquisa do país.

A caminhada de seis horas não teve como foco a ciência, mas serviu como um lembrete importante: antes de explorar, é preciso sobreviver. No espaço, o inimigo mais perigoso nem sempre é a radiação ou o vácuo — pode ser uma simples porca viajando a velocidade orbital.

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