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Ciência

Por que os humanos são obcecados por números impossíveis de imaginar? Um matemático explica como quantidades gigantescas revelam os limites — e a ambição — da mente humana

Bilhões de estrelas, trilhões de galáxias, escalas tão grandes que desafiam qualquer intuição. Um novo livro explora por que nossa espécie desenvolveu fascínio por números absurdamente enormes e como essa obsessão acabou moldando ciência, tecnologia e até a forma como entendemos o universo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Os humanos convivem com números o tempo todo. O preço do café, a idade de uma pessoa, a quantidade de quilômetros até outra cidade, o tempo que falta para uma reunião começar. Nossa realidade parece construída sobre medidas, contagens e proporções.

Mas existe um ponto curioso nessa relação: em algum momento, os números deixam de ser intuitivos. O cérebro simplesmente perde a capacidade de visualizar o que eles realmente significam.

Ainda assim, continuamos fascinados por quantidades gigantescas.

Essa é a ideia central de Huge Numbers: A Story of Counting Ambitiously, from 4 1/2 to Fish 7, novo livro do matemático Richard Elwes, pesquisador da University of Leeds e divulgador científico conhecido pelo canal Numberphile.

Em entrevista ao site Gizmodo, Elwes explicou por que números gigantes exercem um efeito quase emocional sobre os seres humanos — e como eles revelam algo profundo sobre nossa consciência.

O que realmente é um “número grande”?

A resposta parece simples, mas não é.

Segundo Elwes, o conceito de “número grande” depende completamente do contexto.

Se alguém tenta equilibrar bolas de golfe umas sobre as outras, por exemplo, cinco já pode ser um número enorme. Em outros cenários, bilhões talvez sejam apenas uma referência cotidiana.

No livro, o matemático propõe uma definição diferente: um número se torna “grande” quando começa a desafiar os sistemas mentais que usamos para compreendê-lo.

E isso acontece muito mais cedo do que imaginamos.

O cérebro humano tem um limite curioso: 4½

Um dos conceitos mais interessantes apresentados por Elwes envolve algo chamado “subitização”.

Trata-se da capacidade que o cérebro possui de reconhecer pequenas quantidades instantaneamente, sem precisar contar.

Se alguém coloca três objetos sobre uma mesa, por exemplo, a maioria das pessoas percebe imediatamente que são três. Não é necessário calcular conscientemente.

Mas essa habilidade possui um limite.

Segundo experimentos clássicos realizados pelo economista e cientista William Stanley Jevons no século XIX, a fronteira média da subitização humana fica em torno de 4½.

Até quatro objetos, quase ninguém erra. Com cinco, os erros começam a aparecer.

A partir desse ponto, o cérebro precisa recorrer a processos mais lentos e elaborados, como a contagem consciente.

Ou seja: para nossa mente, números maiores que quatro ou cinco já começam a entrar na categoria do “grande”.

Fish 7: um dos maiores números já concebidos

No extremo oposto dessa escala aparece “Fish 7”, citado no subtítulo do livro.

O nome vem de um pesquisador japonês de números gigantescos — conhecido pelo pseudônimo Fish — que criou uma sequência matemática projetada especificamente para representar quantidades absurdamente enormes.

Segundo Elwes, Fish 7 talvez esteja entre os maiores números já descritos formalmente por um ser humano.

Esses números não possuem utilidade prática imediata. Eles existem principalmente como exercícios de linguagem matemática extrema, explorando os limites da lógica e dos sistemas simbólicos modernos.

Por que sentimos vertigem diante de números gigantes?

Para Elwes, números enormes provocam algo parecido com uma reação emocional.

Quando ouvimos “centenas”, “milhares” ou “milhões”, ainda conseguimos imaginar multidões ou objetos físicos. Mas em algum ponto — bilhões, trilhões, quintilhões — a mente perde totalmente a referência concreta.

Mesmo assim, tentamos imaginar.

E é justamente essa tentativa frustrada que produz fascínio.

Segundo o matemático, grandes números empurram nossa imaginação para escalas que simplesmente não fazem parte da experiência humana cotidiana.

O resultado é uma mistura de deslumbramento, desconforto e curiosidade.

Como a civilização mudou nossa relação com números

Elwes também lembra que a capacidade de lidar com grandes números não é algo natural ou automático.

Durante boa parte da história, muitas culturas sequer desenvolveram sistemas numéricos extensos.

O avanço veio principalmente com o surgimento das cidades.

Comércio, impostos, agricultura e organização populacional passaram a exigir formas mais sofisticadas de contagem.

Sistemas antigos, como os números romanos, funcionavam para certas tarefas, mas se tornavam extremamente limitados em operações complexas.

O salto decisivo aconteceu com o sistema numérico originado na Índia, que introduziu uma estrutura capaz de crescer indefinidamente.

Mais tarde, a notação científica transformou completamente nossa relação com escalas extremas.

Hoje, um número gigantesco como um trilhão pode ser representado elegantemente como: 101210^{12}1012

Com apenas alguns símbolos, passamos a descrever quantidades impossíveis de visualizar diretamente.

Números gigantescos ajudam a explicar o universo

Segundo Elwes, essa capacidade não mudou apenas a matemática — mudou também a ciência.

Sem sistemas capazes de representar escalas enormes ou microscópicas, seria impossível falar sobre:

  • estrelas;
  • galáxias;
  • células;
  • partículas subatômicas;
  • idade do universo;
  • distâncias cósmicas.

A matemática ampliou os horizontes mentais da humanidade.

E talvez exista algo profundamente humano nisso tudo: nossa necessidade constante de tentar compreender aquilo que ultrapassa completamente os limites da nossa própria intuição.

Porque, no fim, talvez os números gigantescos não revelem apenas a vastidão do universo — mas também o tamanho da ambição humana de tentar entendê-lo.

 

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