Entender como uma estrela gira pode parecer um detalhe técnico da astrofísica, mas essa característica influencia diretamente sua evolução, sua atividade magnética e até a forma como interpretamos observações do universo. Por cerca de 45 anos, cientistas acreditaram que estrelas semelhantes ao Sol mudariam radicalmente seu padrão de rotação ao envelhecer. Agora, uma nova pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Nagoya indica que essa previsão pode estar equivocada.
O que os modelos previam sobre o envelhecimento das estrelas

Durante décadas, os modelos teóricos de evolução estelar sugeriam que estrelas como o Sol passariam por uma transformação importante à medida que envelhecem.
A previsão era baseada em como essas estrelas perdem velocidade de rotação ao longo de bilhões de anos. Com o tempo, a interação entre plasma quente, convecção interna e forças de rotação deveria reorganizar o fluxo de matéria dentro da estrela.
Segundo esses modelos, chegaria um momento em que o padrão de rotação seria invertido. Em vez de o equador girar mais rápido que os polos — como ocorre atualmente no Sol — o comportamento passaria a ser o oposto.
Nesse cenário, os polos se tornariam as regiões mais rápidas da estrela. Esse regime recebeu o nome de rotação diferencial anti-solar.
Essa ideia permaneceu amplamente aceita por mais de quatro décadas e foi incorporada a diversos modelos utilizados para estudar a evolução de estrelas semelhantes ao nosso Sol.
Como o Sol realmente gira

Ao contrário da Terra, que gira como um corpo sólido, o Sol é formado por plasma extremamente quente e dinâmico. Isso significa que diferentes regiões da estrela giram em velocidades diferentes.
Esse fenômeno é conhecido como rotação diferencial.
No caso do Sol, o equador completa uma rotação aproximadamente a cada 25 dias. Já as regiões próximas aos polos podem levar cerca de 35 dias para completar uma volta.
Essa diferença ocorre porque o plasma solar está em constante movimento, impulsionado por processos de convecção e pelas complexas interações entre calor, gravidade e campos magnéticos.
Durante muito tempo, os astrônomos acreditaram que esse padrão era apenas uma fase da vida da estrela — e que acabaria se invertendo conforme o Sol envelhecesse.
O papel inesperado dos campos magnéticos
A nova pesquisa, publicada na revista científica Nature Astronomy, sugere que essa mudança pode nunca acontecer.
De acordo com os resultados do estudo, estrelas semelhantes ao Sol podem manter o mesmo padrão de rotação diferencial durante toda a sua existência.
Mesmo que a estrela desacelere gradualmente com o passar de bilhões de anos, o equador continuaria girando mais rápido que as regiões polares.
A explicação parece estar no magnetismo estelar.
Os campos magnéticos presentes no interior das estrelas exercem uma influência muito maior do que os modelos antigos eram capazes de representar. Essa força magnética ajuda a estabilizar o fluxo de plasma e impede que o sistema mude para o regime anti-solar previsto anteriormente.
Um supercomputador ajudou a revelar o problema
Para investigar o fenômeno com mais precisão, os pesquisadores recorreram ao Fugaku, considerado o supercomputador mais poderoso do Japão.
Instalado no centro de pesquisa RIKEN, na cidade de Kobe, o sistema entrou em operação para uso científico em 2021 e permite executar simulações extremamente complexas.
Com a ajuda desse computador, os cientistas criaram um modelo detalhado do interior de estrelas semelhantes ao Sol.
Cada estrela simulada foi dividida em cerca de 5,4 bilhões de pontos de cálculo. Essa resolução é muito superior à utilizada em estudos anteriores.
Esse nível de detalhe foi crucial para os resultados.
Em simulações com resolução mais baixa, os campos magnéticos frequentemente desapareciam artificialmente dentro do modelo matemático. Isso levava os pesquisadores a subestimar sua influência na dinâmica interna da estrela.
Quando o magnetismo foi corretamente preservado nas novas simulações, ficou claro que ele desempenha um papel essencial no comportamento rotacional das estrelas.
O que isso significa para a astrofísica
Compreender como estrelas semelhantes ao Sol giram ao longo de suas vidas é fundamental para entender diversos fenômenos astrofísicos.
Um deles é o ciclo solar de aproximadamente 11 anos, responsável pelo surgimento de manchas solares e por períodos mais intensos de atividade magnética.
Esses ciclos influenciam diretamente o chamado clima espacial, que pode afetar satélites, comunicações e até redes elétricas na Terra.
Além disso, modelos mais precisos de rotação estelar ajudam os astrônomos a interpretar melhor as observações de estrelas distantes.
Se a nova hipótese estiver correta, muitos modelos de evolução estelar utilizados atualmente podem precisar ser revisados.
Depois de 45 anos acreditando que estrelas como o Sol mudariam seu padrão de rotação ao envelhecer, os cientistas agora começam a considerar uma possibilidade diferente: talvez o comportamento observado hoje em nosso Sol seja, na verdade, uma característica que acompanha essas estrelas por toda a sua vida.
[ Fonte: Xataka ]