O universo está em expansão — isso já sabemos há quase um século. Mas há um detalhe que continua em aberto: qual é exatamente a velocidade dessa expansão? A resposta pode parecer simples, mas envolve uma das maiores controvérsias da cosmologia moderna. Agora, um evento extremamente raro observado no espaço profundo surge como uma possível peça-chave para resolver esse enigma.
Um fenômeno raro que desafia o que vemos no céu

Cientistas identificaram uma supernova incomum, apelidada de SN Winny, localizada a cerca de 10 bilhões de anos-luz da Terra. O que torna esse objeto especial não é apenas seu brilho — muito mais intenso do que o de explosões estelares comuns —, mas a forma como aparece no céu: cinco vezes ao mesmo tempo.
Esse efeito impressionante acontece por causa de um fenômeno conhecido como lente gravitacional. À medida que a luz da supernova viaja pelo espaço, ela passa por duas galáxias no caminho. A gravidade dessas estruturas distorce a trajetória da luz, criando múltiplas imagens do mesmo evento.
Cada uma dessas imagens chega à Terra em momentos ligeiramente diferentes, pois percorre caminhos distintos. É justamente essa diferença de tempo que pode revelar algo muito maior do que o próprio evento.
Como medir a expansão do universo com luz atrasada
A chave do avanço está na medição desses atrasos. Ao calcular com precisão quanto tempo cada imagem leva para chegar até nós, os cientistas conseguem estimar a chamada constante de Hubble — o valor que define a velocidade de expansão do universo.
Esse método oferece uma abordagem direta, baseada em observações reais, sem depender de tantas etapas intermediárias ou suposições teóricas. É por isso que eventos como esse são tão valiosos — e tão raros.
Segundo os pesquisadores, encontrar uma supernova desse tipo, perfeitamente alinhada com um sistema de lente gravitacional adequado, é algo extremamente improvável. Estima-se que a chance seja inferior a uma em um milhão.
Um sistema único capturado com precisão inédita
Para estudar o fenômeno em detalhes, cientistas utilizaram telescópios de alta resolução capazes de capturar imagens extremamente nítidas do sistema.
💥 A one-in-a-million cosmic alignment.
A supernova 10 billion light-years away appeared five times thanks to gravitational lensing by two galaxies. The event, named SN Winny, may help scientists better measure how fast the Universe is expanding.#Astronomy #Supernova pic.twitter.com/tEmsFmkxii
— Asgardia (@AsgardiaSpace) March 8, 2026
As observações revelaram duas galáxias centrais cercadas por cinco pontos azulados — cada um representando uma imagem da supernova. Essa configuração é particularmente incomum, já que a maioria dos sistemas semelhantes gera apenas duas ou quatro imagens.
A simplicidade relativa das galáxias envolvidas também facilita o trabalho dos pesquisadores. Diferente de sistemas mais complexos, onde a distribuição de massa é difícil de modelar, esse caso permite cálculos mais precisos sobre como a luz foi desviada.
Isso aumenta significativamente a confiabilidade das medições — um fator crucial quando o objetivo é resolver um problema que desafia a ciência há décadas.
O problema que divide os cientistas
Atualmente, existem dois métodos principais para calcular a expansão do universo — e eles não concordam entre si.
O primeiro observa galáxias próximas e mede distâncias em etapas, como uma escada. Já o segundo analisa o universo primitivo por meio da radiação remanescente do Big Bang. Ambos são sofisticados, mas chegam a resultados diferentes — uma divergência conhecida como “tensão de Hubble”.
Essa inconsistência levanta dúvidas profundas sobre nosso entendimento do cosmos. Pode ser que algum detalhe esteja sendo interpretado de forma incorreta — ou que exista algo ainda desconhecido influenciando a expansão do universo.
Um novo caminho que pode mudar tudo
É nesse contexto que entra a importância de eventos como SN Winny. Ao combinar medições de tempo entre as imagens com dados sobre a massa das galáxias que atuam como lente, os cientistas conseguem calcular a constante de Hubble em um único passo.
Isso reduz as incertezas e oferece uma alternativa independente aos métodos tradicionais.
Pesquisadores ao redor do mundo continuam observando essa supernova com telescópios terrestres e espaciais, buscando refinar ainda mais os dados. A expectativa é que, com mais informações, seja possível finalmente esclarecer a verdadeira velocidade de expansão do universo.
Se isso acontecer, não será apenas mais uma descoberta astronômica. Será um ajuste fundamental na forma como entendemos a história e o futuro do cosmos.
[Fonte: Cadena 3]