Pular para o conteúdo
Ciência

Durante décadas acusado de elevar o colesterol, o ovo volta ao centro do debate: o que dizem os estudos mais recentes sobre risco cardiovascular

O ovo já foi apontado como vilão do coração por causa do colesterol da gema. Hoje, novas pesquisas e diretrizes internacionais revisam esse papel. A ciência atual indica que o problema pode não estar no ovo em si — mas no contexto da dieta e na quantidade de gordura saturada consumida.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Por muitos anos, a recomendação parecia simples: quem queria proteger o coração deveria reduzir o consumo de ovos. A gema, rica em colesterol, era vista como ameaça direta à saúde cardiovascular. No entanto, o consenso científico mudou. Estudos recentes e diretrizes atualizadas mostram que o colesterol alimentar pode não ser o principal fator por trás do aumento do LDL — o chamado “colesterol ruim”.

O fim do limite rígido ao colesterol alimentar

Colesterol
© Kateryna Kon/Science Photo Library – Sciencephoto

Nos Estados Unidos, as diretrizes alimentares deixaram de estabelecer, desde 2016, um limite fixo de 300 mg diários para colesterol na dieta — orientação reafirmada nas recomendações para 2025-2030. A mudança ocorreu após estudos indicarem que o colesterol ingerido, como o presente nos ovos, não está diretamente associado a aumentos significativos do LDL na maioria das pessoas.

Segundo especialistas citados pela revista National Geographic, a maior parte do colesterol circulante no sangue é produzida pelo próprio fígado. O médico David L. Katz, especialista em medicina preventiva, afirma que o organismo regula sua produção interna de colesterol de forma mais relevante do que a quantidade ingerida nos alimentos.

Além disso, fatores genéticos desempenham papel importante. A nutricionista Julia Zumpano destaca que entre 60% e 80% dos níveis de colesterol sanguíneo podem ser influenciados pela herança genética.

A verdadeira preocupação: gordura saturada

Se o colesterol da gema deixou de ser o principal suspeito, outro componente ganhou destaque: a gordura saturada.

Especialistas apontam que é esse tipo de gordura — presente em manteiga, carnes vermelhas, laticínios integrais, queijos e óleos tropicais — o maior impulsionador do aumento do LDL. A gordura saturada pode dificultar a remoção do colesterol pelo fígado, favorecendo seu acúmulo no sangue.

O nutricionista Keith Ayoob reforça que o principal gatilho dietético para elevação do colesterol não é o colesterol alimentar, mas sim a gordura saturada. Por isso, as diretrizes recomendam que ela não ultrapasse 10% das calorias diárias — cerca de 20 gramas por dia para um adulto médio.

O que mostram os estudos mais recentes

Um estudo randomizado publicado em 2025 no The American Journal of Clinical Nutrition trouxe dados interessantes: participantes que consumiram dois ovos por dia dentro de uma dieta com baixo teor de gordura saturada apresentaram redução nos níveis de LDL após cinco semanas.

No entanto, o efeito não foi observado quando os ovos faziam parte de uma alimentação rica em gordura saturada. O resultado reforça a importância do contexto alimentar.

Com base nas evidências atuais, a Associação Americana do Coração indica que adultos saudáveis podem consumir de um a dois ovos por dia. Pessoas com colesterol elevado podem incluir até quatro gemas por semana, enquanto indivíduos com histórico familiar podem chegar a seis gemas semanais — sempre com acompanhamento médico.

A importância nutricional da gema

Eliminar a gema significa abrir mão da maior parte dos nutrientes do ovo. Segundo Ayoob, é nela que se concentra a maior densidade nutricional.

Um ovo grande fornece cerca de três gramas de proteína, fósforo, potássio e selênio, além de vitaminas D, A, E e K, folato e colina. Também contém antioxidantes como luteína e zeaxantina, importantes para a saúde ocular.

A colina merece destaque especial por seu papel na saúde cerebral. Já a vitamina D é relativamente rara em alimentos naturais, o que torna o ovo uma fonte relevante e acessível.

Como incluir ovos de forma equilibrada

Preocupação por impacto negativo no consumo de café, arroz e ovos, de acordo com um estudo
© Pexels

Os especialistas reforçam que o modo de preparo e os acompanhamentos fazem diferença. Preparar ovos com azeite de oliva, combiná-los com pães integrais, legumes e alimentos ricos em fibras pode ajudar a reduzir a absorção de colesterol intestinal.

Por outro lado, associá-los a bacon, embutidos ou grandes quantidades de manteiga aumenta a ingestão de gordura saturada — fator mais associado ao risco cardiovascular.

A conclusão que emerge das pesquisas atuais é mais equilibrada do que no passado. O ovo, antes visto como vilão, recupera espaço em uma alimentação variada e balanceada. Em vez de demonizá-lo isoladamente, a ciência sugere olhar para o conjunto da dieta e para as características individuais de cada pessoa.

 

[ Fonte: Infobae ]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados