Durante muito tempo, a ideia de que “guardar energia” poderia melhorar a fertilidade masculina foi amplamente aceita — inclusive em contextos clínicos. Mas novas evidências científicas estão começando a desafiar essa lógica.
Uma revisão recente conduzida por pesquisadores da University of Oxford analisou dezenas de estudos e chegou a uma conclusão interessante: a abstinência prolongada pode, na verdade, prejudicar a qualidade do esperma.
O que acontece com o esperma ao longo do tempo
O corpo masculino produz espermatozoides continuamente e os armazena até a ejaculação. Esse sistema tem vantagens evolutivas claras, permitindo que a fertilização ocorra quando há oportunidade.
Mas há um detalhe importante: como qualquer célula do corpo, os espermatozoides também envelhecem.
Segundo a análise liderada pelo biólogo Krish Sanghvi, quanto mais tempo o esperma permanece armazenado, maior a chance de sofrer danos.
Entre os principais efeitos observados estão:
- aumento do estresse oxidativo
- danos no DNA
- redução da motilidade (capacidade de se mover)
- menor viabilidade geral das células
Esses fatores impactam diretamente a qualidade do esperma — um elemento crucial para a fertilidade.
O que dizem os estudos analisados
A revisão reuniu dados de quase 150 pesquisas, incluindo mais de 100 estudos com humanos e dezenas envolvendo outras espécies.
Os resultados foram consistentes: períodos prolongados de abstinência estão associados a uma queda no desempenho dos espermatozoides.
Esse padrão também foi observado em animais, o que reforça a ideia de que se trata de um mecanismo biológico mais amplo — e não apenas humano.
Quantidade vs. qualidade: o dilema da fertilidade
Tradicionalmente, clínicas de fertilidade recomendam alguns dias de abstinência antes da coleta de esperma, principalmente para aumentar a quantidade.
E isso continua sendo válido em certos contextos.
No entanto, os pesquisadores destacam que a fertilidade não depende apenas do número de espermatozoides, mas também — e talvez principalmente — da qualidade deles.
Em outras palavras: ter mais espermatozoides não necessariamente significa melhores chances de fertilização.
Evidências em tratamentos de fertilidade
Um estudo clínico recente realizado na China trouxe dados interessantes. Ele mostrou que casais tiveram maior sucesso em fertilização in vitro (FIV) quando os homens haviam ejaculado nas 48 horas anteriores à coleta de esperma.
Isso contrasta com a recomendação tradicional de abstinência de dois a sete dias.
Os resultados sugerem que espermatozoides “mais frescos” podem ter melhor desempenho, especialmente em contextos clínicos.
Isso significa que mais frequência é sempre melhor?
Não necessariamente.
Os cientistas reforçam que o equilíbrio depende do objetivo:
- Para análise de fertilidade → abstinência pode ajudar a medir a capacidade total
- Para aumentar qualidade → ejaculações mais frequentes podem ser benéficas
Ou seja, não existe uma regra única que sirva para todos os casos.
Mitos e realidade sobre saúde masculina
Além da fertilidade, o estudo também ajuda a desmistificar crenças antigas sobre a ejaculação.
Pesquisas recentes indicam que a masturbação:
- não prejudica o desempenho físico
- não reduz a “energia” do corpo
- pode até trazer benefícios indiretos
Isso vai contra ideias populares que associam abstinência a melhor desempenho ou saúde geral.
Um ajuste nas recomendações médicas?
Os autores do estudo defendem que pode ser hora de reavaliar algumas práticas em clínicas de fertilidade.
Em vez de focar apenas na quantidade de esperma, seria mais eficaz considerar também sua qualidade — e como ela é afetada pelo tempo de armazenamento no corpo.
Essa mudança pode parecer sutil, mas tem implicações importantes para tratamentos e para casais que tentam engravidar.
No fim das contas, a lógica é simples
O corpo humano segue um princípio bastante direto: estruturas biológicas tendem a funcionar melhor quando são utilizadas regularmente.
No caso do esperma, a ciência começa a reforçar essa ideia.
E, ao que tudo indica, quando se trata de fertilidade masculina, o velho ditado faz sentido — usar pode ser melhor do que guardar.