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Ciência

El Niño pode se tornar um dos mais fortes já registrados — e isso pode afetar o planeta inteiro

O El Niño de 2026 está se desenvolvendo em um ritmo excepcional e pode entrar para a história como um dos mais intensos já observados. O fenômeno altera chuvas, temperaturas, secas e tempestades em várias partes do mundo.
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Tempo de leitura: 5 minutos

O El Niño é um fenômeno climático natural conhecido há décadas, mas o episódio atual está chamando atenção dos cientistas. As águas do Pacífico equatorial estão aquecendo rapidamente e alguns modelos indicam temperaturas muito acima da média nos próximos meses.

O problema é que esse calor não fica restrito ao oceano. Ele interfere na circulação da atmosfera e pode desencadear uma sequência de mudanças climáticas a milhares de quilômetros de distância. Secas, enchentes, ondas de calor, alterações nas temporadas de furacões e até impactos econômicos podem surgir como consequência.

O que é o fenômeno El Niño?

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© Pexels

O El Niño acontece quando as águas superficiais do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal durante um período prolongado. O fenômeno faz parte de um ciclo natural envolvendo a interação entre oceano e atmosfera e costuma aparecer em intervalos de alguns anos.

A NOAA, agência responsável pelo monitoramento climático e oceânico dos Estados Unidos, acompanha principalmente uma região conhecida como Niño 3.4. Entre os critérios utilizados está uma temperatura média da superfície do mar pelo menos 0,5 °C acima do normal durante vários períodos consecutivos, acompanhada por alterações nos ventos e nas chuvas.

Durante o El Niño, os ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste enfraquecem. Com isso, grandes volumes de água quente conseguem avançar em direção ao Pacífico tropical oriental.

Essa mudança aparentemente localizada pode reorganizar parte da circulação atmosférica global. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas regiões tendem a receber mais chuva durante o inverno, enquanto a temporada de furacões no Atlântico pode ficar menos intensa.

Em outras áreas, porém, o risco é justamente o contrário. Indonésia e partes da África podem enfrentar secas mais severas.

O que é um “Super El Niño”?

Quando o aquecimento do Pacífico se torna excepcionalmente intenso, o fenômeno costuma ser chamado informalmente de “Super El Niño”. Não existe uma definição internacional única, mas episódios em que as temperaturas ficam cerca de 2 °C ou mais acima da média normalmente entram nessa categoria.

Eventos extremos ocorreram em 1982-83, 1997-98, 2015-16 e 2023-24.

As consequências foram significativas. O episódio de 1982-83 contribuiu para condições extremas na bacia do rio Colorado, enquanto a Indonésia sofreu uma seca histórica durante o El Niño de 1997-98. Já entre 2023 e 2024, o sul da África enfrentou sua pior seca em mais de um século, deixando milhões de pessoas dependentes de assistência humanitária.

Agora, existe a possibilidade de um episódio ainda mais intenso.

El Niño de 2026 pode atingir níveis excepcionais

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© YouTube

Segundo previsões da NOAA divulgadas em agosto de 2026, existe mais de 90% de probabilidade de desenvolvimento de um El Niño muito intenso durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte.

Além disso, alguns modelos climáticos indicam que a temperatura da superfície do Pacífico poderá ultrapassar em mais de 3 °C os valores médios.

Uma análise baseada em 667 simulações produzidas por 14 sistemas de previsão aponta que a região Niño 3.4 poderia chegar a aproximadamente 3,6 °C acima da média. Caso isso aconteça, o aquecimento superaria significativamente o registrado durante o poderoso El Niño de 2015-16.

A Agência Meteorológica do Japão também detectou sinais extremos. Em julho, as temperaturas na região Niño 3 ficaram 2,5 °C acima do valor de referência, o maior nível para esse mês desde 1949, empatado com 1997.

Outro detalhe chama atenção: a velocidade do desenvolvimento.

O episódio atual começou com temperaturas relativamente baixas, próximas às condições associadas à La Niña. Mesmo assim, o Pacífico aqueceu rapidamente e o fenômeno avançou em um ritmo superior ao observado durante o Super El Niño de 1997-98.

Os maiores impactos podem aparecer em 2027

Existe um intervalo entre o aquecimento do Pacífico e seus efeitos completos sobre a temperatura global. Por isso, parte das consequências do atual El Niño poderá ficar mais evidente em 2027.

Algumas projeções indicam que a temperatura média global poderá chegar a aproximadamente 1,7 °C acima dos níveis pré-industriais no próximo ano.

Os impactos também podem atingir diretamente os recursos hídricos. No oeste dos Estados Unidos, por exemplo, temperaturas elevadas e poucas chuvas reduziram significativamente o acúmulo de neve em diversas regiões.

Isso é especialmente preocupante para a bacia do rio Colorado, responsável pelo abastecimento de água de cerca de 40 milhões de pessoas.

Além disso, um derretimento rápido da neve pode deixar o solo mais seco e favorecer temporadas prolongadas de incêndios florestais.

O impacto econômico também pode ser enorme. Estimativas indicam que os efeitos associados ao El Niño de 1997-98 provocaram perdas acumuladas de aproximadamente US$ 5,7 trilhões na economia mundial nos cinco anos seguintes.

Se as projeções atuais se confirmarem, as perdas relacionadas ao novo episódio poderiam chegar a cerca de US$ 10 trilhões até 2032. Entretanto, como não existem precedentes modernos para um El Niño dessa intensidade, essas estimativas ainda carregam grande incerteza.

E o que é La Niña?

Furacões
© NOAA

La Niña representa praticamente o fenômeno oposto. Nesse caso, as águas superficiais do Pacífico equatorial permanecem mais frias do que o normal durante vários meses.

Isso acontece quando os ventos alísios ficam mais fortes e empurram as águas quentes em direção ao oeste. Como consequência, águas profundas e frias sobem para a superfície no Pacífico oriental.

Os efeitos climáticos também costumam seguir padrões diferentes. Indonésia e norte da Austrália podem receber mais chuva, enquanto regiões costeiras do Peru e do Equador tendem a ficar mais secas.

No Atlântico, La Niña também pode favorecer temporadas mais ativas de furacões.

Por enquanto, porém, os modelos apontam para a continuidade do El Niño. As projeções indicam que o fenômeno poderá permanecer ativo até a primavera de 2027, enquanto a possibilidade de uma transição rápida para La Niña é considerada extremamente baixa.

O grande ponto de interrogação agora é até onde o aquecimento do Pacífico poderá chegar. Se as previsões mais extremas se confirmarem, o planeta poderá estar entrando em território praticamente desconhecido nos registros modernos do El Niño.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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