Fotos de jovens sorridentes, slogans como “velocidade insana” e “obsessão pelo cliente”, promessa de refeições gratuitas, academia e plano de saúde. À primeira vista, parece o retrato clássico de uma startup dos sonhos. Mas, logo abaixo, o aviso: não se candidate se não estiver disposto a trabalhar cerca de 70 horas por semana.
O modelo não é isolado. Ele reflete uma cultura conhecida como “996” — trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana. A prática surgiu na China e agora reaparece no debate em empresas de tecnologia nos Estados Unidos e em outros países.
O que é a cultura 996

O termo “996” ficou conhecido na China na década passada, quando empresas de tecnologia adotaram jornadas prolongadas em meio à rápida expansão do setor digital.
Executivos influentes defenderam publicamente o modelo. Entre eles, Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, que chegou a classificar o 996 como uma “bênção” para profissionais ambiciosos. Outro defensor foi Richard Liu, da JD.com, que criticou funcionários que considerava pouco dedicados.
A reação foi forte. Trabalhadores denunciaram excesso de jornada e descumprimento de leis trabalhistas. Em 2021, autoridades chinesas passaram a restringir oficialmente práticas consideradas abusivas. O 996 não desapareceu, mas seus defensores tornaram-se mais discretos.
A corrida pela inteligência artificial
Nos Estados Unidos, o ressurgimento dessa cultura está ligado principalmente ao avanço acelerado da inteligência artificial.
Startups disputam investimentos bilionários de capital de risco e enfrentam concorrência global. A lógica é simples: quem lançar primeiro, vence. Nesse ambiente, muitos fundadores acreditam que trabalhar mais horas significa acelerar resultados.
Empresas de IA em estágio inicial frequentemente operam com equipes enxutas. Fundadores relatam jornadas que chegam a 70 ou 80 horas semanais. Para alguns, essa intensidade é parte natural da construção de um negócio inovador.
Mas nem todos concordam que mais horas resultam em melhor desempenho.
Produtividade tem limite

Pesquisas acadêmicas apontam que a produtividade aumenta até certo ponto — geralmente por volta de 40 horas semanais. Depois disso, começa a cair.
Estudos indicam que, acima de 55 horas por semana, os riscos à saúde aumentam significativamente. Em 2021, uma análise conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou que jornadas prolongadas estavam associadas a 745 mil mortes globais por doenças cardiovasculares e AVC em 2016.
O levantamento mostrou que trabalhar 55 horas ou mais por semana eleva o risco de morte por doenças cardíacas em 17% e o risco de AVC em 35%, comparado a jornadas entre 35 e 40 horas.
Além da saúde, há a questão do retorno real. Pesquisas da Universidade Estadual de Michigan sugerem que um funcionário que trabalha 70 horas semanais pode ter desempenho semelhante ao de alguém que trabalha 50 horas.
Ou seja: o ganho marginal diminui drasticamente.
Pressão, poder e escolha
Especialistas em cultura organizacional afirmam que existe uma diferença entre escolher trabalhar longas horas e sentir-se obrigado a isso.
Em alguns casos, trabalhadores podem aceitar jornadas intensas por medo de perder o emprego, necessidade de visto ou dificuldade no mercado de trabalho. Isso cria uma dinâmica de poder desigual.
Ao mesmo tempo, investidores costumam esperar dedicação total de fundadores. Para quem lidera uma startup e pode se tornar milionário se o negócio der certo, as regras são diferentes.
Mas aplicar essa expectativa a todos os funcionários é mais controverso.
Tendência restrita ou novo padrão?
Embora o debate tenha ganhado força no setor de tecnologia, jornadas longas não são exclusividade dele. Bancos de investimento e grandes escritórios de advocacia também são conhecidos por semanas que podem ultrapassar 65 horas — e, em períodos críticos, chegar a 100 horas.
Ainda assim, movimentos em sentido contrário também surgem. Em 2022, um projeto piloto no Reino Unido testou a semana de quatro dias em 61 organizações. O resultado indicou redução de estresse e manutenção da produtividade.
Para muitos especialistas, o foco deveria ser eficiência e gestão inteligente, não simplesmente extensão da jornada.
A cultura do “trabalhar até cair” pode soar heroica em discursos motivacionais. Mas os dados sugerem que, além de arriscada para a saúde, ela nem sempre é a forma mais eficaz de inovar.
No fim, a pergunta permanece: em uma economia movida a tecnologia e criatividade, vale mais trabalhar mais horas — ou trabalhar melhor?
[ Fonte: BBC ]