Durante décadas, a Índia concentrou esforços para reduzir o crescimento populacional. Campanhas de planejamento familiar, ampliação da educação feminina e acesso a métodos contraceptivos mudaram profundamente o perfil demográfico do país. Mas agora, uma região indiana decidiu seguir na direção oposta. Em meio ao envelhecimento da população e a uma disputa política cada vez mais intensa entre norte e sul, um estado passou a oferecer incentivos financeiros para estimular famílias a terem mais filhos.
O estado indiano que decidiu recompensar famílias maiores
A mudança foi anunciada pelo governo de Andhra Pradesh, estado localizado no sul da Índia, região historicamente mais rica e desenvolvida do país. O chefe do governo local, N. Chandrababu Naidu, confirmou a criação de pagamentos diretos para famílias que tiverem terceiro e quarto filhos.
Segundo o plano divulgado, o governo pretende oferecer 30 mil rupias — cerca de 360 dólares — para o nascimento do terceiro filho, além de 40 mil rupias para o quarto.
A proposta também prevê ampliar a licença-maternidade para até um ano, numa tentativa de reduzir os impactos do envelhecimento da população economicamente ativa.
A medida surpreendeu porque a Índia já é oficialmente o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,42 bilhão de habitantes. Mesmo assim, autoridades regionais demonstram preocupação com a queda acelerada da taxa de natalidade em algumas áreas do país.
O problema demográfico que está dividindo a Índia

A principal preocupação aparece justamente no sul da Índia.
Estados mais ricos e urbanizados vêm registrando taxas de fertilidade próximas às observadas em muitos países europeus. Em Andhra Pradesh, por exemplo, a média atual gira em torno de 1,5 filho por mulher — muito abaixo do índice de 2,1 considerado necessário para manter a população estável ao longo das gerações.
Enquanto isso, estados do norte indiano ainda registram médias próximas de três filhos por mulher.
Essa diferença criou um desequilíbrio demográfico que começou a gerar preocupação política.
O temor dos estados do sul é perder influência no Parlamento indiano caso futuras redistribuições de cadeiras legislativas sejam feitas com base no crescimento populacional. Em outras palavras: regiões onde a população cresce mais rápido poderiam ganhar mais peso político nacional.
Por isso, o debate deixou de ser apenas econômico ou social e passou a envolver diretamente poder político.
A Índia que antes combatia o crescimento populacional mudou de estratégia

Durante boa parte do século XX, a Índia investiu fortemente em políticas de controle populacional.
Campanhas de planejamento familiar foram incentivadas em larga escala, especialmente após explosões demográficas que pressionavam infraestrutura, empregos e serviços públicos.
Os resultados apareceram rapidamente.
A taxa nacional de fecundidade caiu de 3,4 filhos por mulher nos anos 1990 para cerca de 2 filhos atualmente. O avanço da educação feminina, urbanização e maior acesso a contraceptivos transformaram completamente o cenário demográfico do país.
Agora, porém, algumas regiões começam a enxergar essa desaceleração como um problema futuro.
A idade média da população indiana também aumentou significativamente nas últimas décadas, alimentando preocupações sobre envelhecimento da força de trabalho e redução do número de jovens economicamente ativos.
Segundo projeções da ONU, a população da Índia ainda deve continuar crescendo por algumas décadas, podendo atingir aproximadamente 1,7 bilhão de pessoas antes de começar a desacelerar.
Mesmo assim, certas regiões acreditam que já precisam agir preventivamente.
O incentivo financeiro virou parte de uma disputa maior
O programa de Andhra Pradesh também reflete mudanças políticas internas.
O estado é governado por uma coalizão ligada ao partido do primeiro-ministro Narendra Modi, cujo entorno político vem defendendo, cada vez mais, famílias maiores como estratégia de fortalecimento demográfico.
A Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização hindu historicamente ligada ao partido governista, também passou a alertar sobre possíveis “desequilíbrios demográficos” no futuro do país.
Outros estados começaram a seguir caminho semelhante.
Sikkim, no nordeste indiano, lançou programas de incentivo incluindo apoio financeiro para fertilização in vitro, licença-paternidade ampliada e benefícios para casais que decidirem ter mais filhos.
O curioso é que tudo isso acontece enquanto a Índia ainda enfrenta problemas graves de desemprego juvenil. Dados recentes apontam taxas próximas de 10% entre jovens de 15 a 29 anos, com números ainda maiores em áreas urbanas.
Isso cria um debate complexo: ao mesmo tempo em que algumas regiões querem aumentar a natalidade, o país ainda enfrenta dificuldades para absorver economicamente parte da população jovem atual.
O futuro da Índia pode depender dessa mudança silenciosa
A decisão de Andhra Pradesh mostra como questões demográficas se tornaram centrais para governos ao redor do mundo.
Países que antes temiam crescimento populacional acelerado agora começam a lidar com outro desafio: envelhecimento da população, queda na força de trabalho e redução das taxas de natalidade.
O caso da Índia chama ainda mais atenção porque envolve o país mais populoso do planeta — um lugar onde, até pouco tempo atrás, o discurso dominante era justamente o oposto.
Agora, filhos passaram a ser vistos não apenas como questão familiar, mas como recurso econômico, político e estratégico para o futuro do país.
E isso talvez seja apenas o começo de uma transformação muito maior na forma como governos enxergam população, crescimento e poder nas próximas décadas.
[Fonte: Infobae]