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Mesmo sendo o país mais populoso do planeta, um estado da Índia começou a pagar famílias para terem mais filhos

Uma região da Índia decidiu oferecer dinheiro para quem tiver mais filhos. A decisão esconde uma disputa silenciosa que cresce há anos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a Índia concentrou esforços para reduzir o crescimento populacional. Campanhas de planejamento familiar, ampliação da educação feminina e acesso a métodos contraceptivos mudaram profundamente o perfil demográfico do país. Mas agora, uma região indiana decidiu seguir na direção oposta. Em meio ao envelhecimento da população e a uma disputa política cada vez mais intensa entre norte e sul, um estado passou a oferecer incentivos financeiros para estimular famílias a terem mais filhos.

O estado indiano que decidiu recompensar famílias maiores

A mudança foi anunciada pelo governo de Andhra Pradesh, estado localizado no sul da Índia, região historicamente mais rica e desenvolvida do país. O chefe do governo local, N. Chandrababu Naidu, confirmou a criação de pagamentos diretos para famílias que tiverem terceiro e quarto filhos.

Segundo o plano divulgado, o governo pretende oferecer 30 mil rupias — cerca de 360 dólares — para o nascimento do terceiro filho, além de 40 mil rupias para o quarto.

A proposta também prevê ampliar a licença-maternidade para até um ano, numa tentativa de reduzir os impactos do envelhecimento da população economicamente ativa.

A medida surpreendeu porque a Índia já é oficialmente o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,42 bilhão de habitantes. Mesmo assim, autoridades regionais demonstram preocupação com a queda acelerada da taxa de natalidade em algumas áreas do país.

O problema demográfico que está dividindo a Índia

Mesmo sendo o país mais populoso do planeta, um estado da Índia começou a pagar famílias para terem mais filhos
© Pexels

A principal preocupação aparece justamente no sul da Índia.

Estados mais ricos e urbanizados vêm registrando taxas de fertilidade próximas às observadas em muitos países europeus. Em Andhra Pradesh, por exemplo, a média atual gira em torno de 1,5 filho por mulher — muito abaixo do índice de 2,1 considerado necessário para manter a população estável ao longo das gerações.

Enquanto isso, estados do norte indiano ainda registram médias próximas de três filhos por mulher.

Essa diferença criou um desequilíbrio demográfico que começou a gerar preocupação política.

O temor dos estados do sul é perder influência no Parlamento indiano caso futuras redistribuições de cadeiras legislativas sejam feitas com base no crescimento populacional. Em outras palavras: regiões onde a população cresce mais rápido poderiam ganhar mais peso político nacional.

Por isso, o debate deixou de ser apenas econômico ou social e passou a envolver diretamente poder político.

A Índia que antes combatia o crescimento populacional mudou de estratégia

Mesmo sendo o país mais populoso do planeta, um estado da Índia começou a pagar famílias para terem mais filhos
© Pexels

Durante boa parte do século XX, a Índia investiu fortemente em políticas de controle populacional.

Campanhas de planejamento familiar foram incentivadas em larga escala, especialmente após explosões demográficas que pressionavam infraestrutura, empregos e serviços públicos.

Os resultados apareceram rapidamente.

A taxa nacional de fecundidade caiu de 3,4 filhos por mulher nos anos 1990 para cerca de 2 filhos atualmente. O avanço da educação feminina, urbanização e maior acesso a contraceptivos transformaram completamente o cenário demográfico do país.

Agora, porém, algumas regiões começam a enxergar essa desaceleração como um problema futuro.

A idade média da população indiana também aumentou significativamente nas últimas décadas, alimentando preocupações sobre envelhecimento da força de trabalho e redução do número de jovens economicamente ativos.

Segundo projeções da ONU, a população da Índia ainda deve continuar crescendo por algumas décadas, podendo atingir aproximadamente 1,7 bilhão de pessoas antes de começar a desacelerar.

Mesmo assim, certas regiões acreditam que já precisam agir preventivamente.

O incentivo financeiro virou parte de uma disputa maior

O programa de Andhra Pradesh também reflete mudanças políticas internas.

O estado é governado por uma coalizão ligada ao partido do primeiro-ministro Narendra Modi, cujo entorno político vem defendendo, cada vez mais, famílias maiores como estratégia de fortalecimento demográfico.

A Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização hindu historicamente ligada ao partido governista, também passou a alertar sobre possíveis “desequilíbrios demográficos” no futuro do país.

Outros estados começaram a seguir caminho semelhante.

Sikkim, no nordeste indiano, lançou programas de incentivo incluindo apoio financeiro para fertilização in vitro, licença-paternidade ampliada e benefícios para casais que decidirem ter mais filhos.

O curioso é que tudo isso acontece enquanto a Índia ainda enfrenta problemas graves de desemprego juvenil. Dados recentes apontam taxas próximas de 10% entre jovens de 15 a 29 anos, com números ainda maiores em áreas urbanas.

Isso cria um debate complexo: ao mesmo tempo em que algumas regiões querem aumentar a natalidade, o país ainda enfrenta dificuldades para absorver economicamente parte da população jovem atual.

O futuro da Índia pode depender dessa mudança silenciosa

A decisão de Andhra Pradesh mostra como questões demográficas se tornaram centrais para governos ao redor do mundo.

Países que antes temiam crescimento populacional acelerado agora começam a lidar com outro desafio: envelhecimento da população, queda na força de trabalho e redução das taxas de natalidade.

O caso da Índia chama ainda mais atenção porque envolve o país mais populoso do planeta — um lugar onde, até pouco tempo atrás, o discurso dominante era justamente o oposto.

Agora, filhos passaram a ser vistos não apenas como questão familiar, mas como recurso econômico, político e estratégico para o futuro do país.

E isso talvez seja apenas o começo de uma transformação muito maior na forma como governos enxergam população, crescimento e poder nas próximas décadas.

[Fonte: Infobae]

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