A relação entre o Vaticano e a inteligência artificial acaba de entrar em uma nova fase — e ela parece muito mais ambiciosa do que muitos imaginavam.
Segundo informações divulgadas pela Bloomberg e pela imprensa do Vaticano, o papa Pope Leo XIV prepara sua primeira encíclica dedicada à inteligência artificial, um documento oficial que tradicionalmente reúne reflexões profundas da Igreja sobre temas sociais, políticos e éticos.
O texto receberá o nome de Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”) e será apresentado oficialmente no Vaticano no próximo dia 25 de maio.
Mas o detalhe que mais chamou atenção foi outro: o evento contará com a presença de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma das principais rivais da OpenAI e responsável pelo chatbot Claude.
A aproximação entre o novo papa e uma das empresas mais influentes da IA mostra como o debate sobre tecnologia, ética e poder digital começa a ganhar contornos muito maiores do que apenas uma disputa empresarial.
O Vaticano quer discutir IA como uma nova revolução industrial
Desde que assumiu o papado, Leão XIV vem demonstrando preocupação pública com os impactos sociais da inteligência artificial.
Em seus primeiros discursos oficiais, ele comparou o atual momento tecnológico à Revolução Industrial, afirmando que a Igreja precisa responder aos novos desafios impostos pela automação, pela IA e pela transformação do trabalho humano.
Segundo o Vaticano, a nova encíclica será focada em “preservar a pessoa humana na era da inteligência artificial”.
A escolha do nome Leão também não foi aleatória.
O papa afirmou anteriormente que deseja seguir os passos de Pope Leo XIII, pontífice do fim do século XIX conhecido pela histórica encíclica Rerum Novarum, documento que abordava direitos trabalhistas, desigualdade social e os impactos da industrialização.
Agora, Leão XIV parece enxergar a inteligência artificial como a próxima grande transformação econômica e social da humanidade.
O papa já vinha fazendo críticas ao avanço da IA
Nos últimos meses, Leão XIV adotou um discurso bastante crítico em relação aos riscos da inteligência artificial.
Durante a mensagem oficial para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o papa alertou sobre sistemas capazes de simular vozes, rostos, empatia e relações humanas.
Ele afirmou que as tecnologias de IA não afetam apenas o fluxo de informação, mas também “o nível mais profundo da comunicação humana”.
O pontífice ainda fez um apelo para que as pessoas não abandonem sua capacidade de pensar criticamente diante do avanço das máquinas inteligentes.
O posicionamento mantém parte da linha já defendida anteriormente por Pope Francis, que frequentemente alertava sobre desumanização tecnológica e desigualdade social provocada pela automação.
A Anthropic tenta fortalecer sua imagem “ética”
A presença de Christopher Olah no evento também tem forte peso estratégico.
A Anthropic vem tentando se posicionar como uma empresa de inteligência artificial mais preocupada com segurança e ética do que parte de seus concorrentes.
A companhia ficou conhecida pelo conceito de “IA constitucional”, modelo em que o chatbot Claude segue princípios éticos previamente definidos para orientar suas respostas.
Em um movimento simbólico, a empresa chegou até a consultar um sacerdote católico durante o desenvolvimento da chamada “Constituição” do Claude.
A participação no Vaticano reforça ainda mais essa tentativa de aproximação institucional com debates éticos e humanistas sobre inteligência artificial.
O Vale do Silício percebeu que a Igreja ainda exerce enorme influência
A aproximação entre gigantes da tecnologia e o Vaticano não acontece por acaso.
Nos últimos anos, empresas do Vale do Silício passaram a buscar diálogo com lideranças religiosas e instituições morais tradicionais, especialmente em temas ligados à IA, privacidade e futuro do trabalho.
Embora grande parte da elite tecnológica americana seja secular ou ateia, existe uma percepção crescente de que debates éticos globais sobre inteligência artificial exigirão legitimidade social — e poucas instituições possuem influência moral tão ampla quanto a Igreja Católica.
Especialmente agora, quando governos e empresas começam a discutir regulamentação de IA em escala internacional.
O debate sobre IA está deixando de ser apenas técnico
O encontro entre o papa e um dos fundadores da Anthropic simboliza algo maior do que uma simples parceria institucional.
Ele mostra como a inteligência artificial deixou de ser apenas um tema técnico restrito a engenheiros e empresas de tecnologia.
Agora, ela começa a entrar no centro de discussões filosóficas, morais e até espirituais sobre trabalho, consciência, relações humanas e dignidade.
E o Vaticano claramente não quer ficar fora dessa conversa.