Ter um filho pode render um benefício expressivo para funcionários de algumas empresas da Coreia do Sul. A Booyoung, um dos exemplos mais conhecidos, instituiu um pagamento de 100 milhões de won por nascimento. A medida integra uma resposta empresarial ao declínio demográfico. Embora os nascimentos tenham voltado a crescer no país, atribuir essa recuperação aos bônus exige cautela: decisões familiares envolvem trabalho, moradia, renda e divisão dos cuidados.
Um pagamento de 100 milhões de won por filho

A Booyoung anunciou o incentivo em 2024, com aplicação também a nascimentos anteriores. Na divulgação inicial, o valor correspondia a aproximadamente US$ 75 mil por criança, conforme a cotação daquele momento.
Segundo a reportagem da agência Yonhap sobre o lançamento, a empresa apresentou o pagamento como uma contribuição para enfrentar a baixa natalidade sul-coreana.
O programa continuou nos anos seguintes. Em fevereiro de 2026, a companhia anunciou uma nova distribuição de 3,6 bilhões de won, equivalente a 36 benefícios de 100 milhões. A imprensa local informou que o total acumulado desde o início da iniciativa havia alcançado 13,4 bilhões de won.
São valores elevados para um benefício ligado ao nascimento de uma criança. Ainda assim, o alcance permanece limitado aos trabalhadores contemplados. A existência de um programa empresarial não significa que todas as famílias sul-coreanas tenham acesso a uma ajuda semelhante.
A fecundidade subiu, mas continua muito baixa
Os dados oficiais preliminares de 2025 registraram aproximadamente 254,5 mil nascimentos na Coreia do Sul. O número representou crescimento de 6,8% em relação ao ano anterior.
A taxa de fecundidade passou de 0,75 filho por mulher em 2024 para 0,80 em 2025. Em 2023, havia atingido 0,72.
Essa sequência mostra uma recuperação após o mínimo registrado em 2023. Portanto, o resultado de 2025 não constitui um novo recorde de baixa, como sugere um dos destaques da reportagem original.
Também é importante entender o indicador. A taxa de fecundidade estima quantos filhos uma mulher teria se as taxas observadas em cada idade permanecessem constantes durante sua vida reprodutiva. Ela não descreve quantos filhos todas as mulheres efetivamente tiveram.
Apesar da melhora, o país registrou mais mortes do que nascimentos em 2025. O saldo natural da população permaneceu negativo em cerca de 110 mil pessoas.
Dinheiro ajuda, mas tempo e carreira também pesam
O incentivo financeiro enfrenta uma parte concreta do problema: criar filhos exige recursos. Entretanto, o relatório Korea’s Unborn Future, da OCDE, destaca obstáculos que vão além das despesas imediatas.
Entre eles estão práticas de trabalho pouco flexíveis e uma divisão desigual das responsabilidades familiares. Para muitas mulheres, a maternidade ainda implica perdas profissionais e dificuldade para manter o emprego.
A organização também identifica custos de moradia e educação como fatores relevantes. Nesse cenário, receber um bônus pode aliviar o orçamento sem resolver a rotina dos anos seguintes.
A análise da OCDE aponta a importância de combinar licenças parentais, serviços de cuidado infantil e condições de trabalho compatíveis com a vida familiar. Medidas nessas áreas se complementam; avançar em uma delas não elimina necessariamente os obstáculos das demais.
Ainda falta medir o efeito dos incentivos
O aumento dos nascimentos dentro de uma empresa pode indicar que seus benefícios merecem acompanhamento. Para demonstrar causalidade, porém, seria necessário comparar grupos semelhantes e considerar outros fatores que influenciam a decisão de ter filhos.
Também importa distinguir antecipação de planos familiares de um aumento duradouro no número de crianças. Uma família pode realizar antes uma decisão que já pretendia tomar.
Os bônus sul-coreanos oferecem um exemplo de participação das empresas nesse debate. Sua contribuição mais ampla dependerá de como o apoio financeiro se combina com condições que permitam aos funcionários cuidar dos filhos e continuar trabalhando.