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Ciência

Estamos entrando em uma nova era nuclear, alertam especialistas — e o mundo já sente os primeiros sinais

Após três décadas de acordos e redução de arsenais, o planeta volta a assistir a uma escalada atômica. Rússia, China, Coreia do Norte e Estados Unidos apresentam novos armamentos e sistemas de defesa, reacendendo temores da Guerra Fria. Para pesquisadores, o conflito na Ucrânia foi o gatilho que acelerou essa guinada.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O equilíbrio nuclear global, que parecia relativamente estável desde o fim da Guerra Fria, sofreu uma ruptura significativa nos últimos anos. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, marcou o início de um período em que armas atômicas voltaram a ocupar o centro das disputas estratégicas entre grandes potências. Pesquisadores alertam que o mundo atravessa uma nova era nuclear — mais imprevisível, tecnologicamente avançada e politicamente tensa.

Da corrida atômica ao período de distensão

Bomba Nuclear
© Pexels – iStock

A trajetória nuclear do século 20 pode ser dividida em fases bem definidas. A primeira delas, entre 1945 e 1960, começou com o avanço científico dos Estados Unidos, que desenvolveram a bomba atômica e a utilizaram contra Hiroshima e Nagasaki. Poucos anos depois, em 1949, a União Soviética testou seu próprio artefato, inaugurando uma disputa que transformaria o planeta.

O segundo período, de 1960 a 1990, corresponde ao auge da corrida nuclear da Guerra Fria. Nessa fase, as duas superpotências expandiram seus arsenais a níveis inéditos, acumulando mais de 70 mil ogivas implantadas. Foi também o momento em que crises como a dos mísseis em Cuba, em 1962, colocaram o mundo à beira de um conflito atômico.

Com o fim da União Soviética, os anos 1990 inauguraram três décadas de relativa contenção. Tratados como o START, o New START e o TNP ajudaram a reduzir significativamente o número de ogivas, enquanto a diplomacia internacional buscava limitar testes e desenvolver mecanismos de verificação.

O retorno da ameaça: uma nova fase começa em 2022

Para especialistas, esse ciclo de estabilidade começou a ruir com a guerra na Ucrânia. A partir de 2022, o uso de retórica nuclear por parte da Rússia reacendeu temores adormecidos. O conflito também expôs disputas de poder envolvendo outras potências, que passaram a exibir avanços tecnológicos e a reforçar seus arsenais.

Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador visitante em Harvard, afirma que esse movimento sinaliza o início de uma nova era nuclear — mais difusa, assimétrica e marcada por tecnologias inéditas. “As potências voltaram a usar o arsenal atômico como recado político. Não há dúvidas de que já estamos inseridos nessa nova fase”, diz.

Novas armas, velhas tensões

Declaração sobre ameaça nuclear reacende tensão e revela dilema diplomático no Oriente Médio
© https://x.com/IranMilitary__

A Rússia, principal protagonista da atual escalada, realiza testes de sistemas sofisticados que combinam velocidade, alcance e mecanismos de evasão. Entre eles está o Burvestnik, um míssil de cruzeiro movido por energia nuclear capaz de permanecer longos períodos em voo. Outro exemplo é o Poseidon, um drone submarino projetado para gerar tsunamis radioativos — uma arma concebida para contornar defesas tradicionais.

A China também amplia rapidamente seu arsenal e testa novos mísseis balísticos intercontinentais, redesenhando o equilíbrio militar na Ásia. Já a Coreia do Norte, tradicionalmente isolada, apresentou o Hwasong-18, míssil que afirma ser capaz de atingir qualquer ponto do planeta, embora analistas ressaltem que ainda faltam evidências independentes para validar seu alcance.

O impacto da proposta do “Domo Dourado”

Nos Estados Unidos, o debate ganhou força após Donald Trump defender o desenvolvimento de um novo sistema de defesa antimísseis — apelidado por ele de “Golden Dome”, ou Domo Dourado. A ideia é criar uma espécie de escudo capaz de interceptar projéteis nucleares, conceito que lembra o antigo programa “Guerra nas Estrelas”, dos anos 1980.

Para Brustolin, a proposta causa preocupação justamente porque altera a lógica da paridade nuclear. “China e Rússia reclamaram porque um sistema assim colocaria os EUA em vantagem estratégica, pressionando outros países a expandir seus arsenais”, explica.

Um mundo mais instável

Embora o planeta não esteja à beira de um episódio tão dramático quanto a crise dos mísseis de 1962, os sinais de deterioração são claros. O uso político das armas nucleares voltou ao centro da diplomacia, e a modernização dos arsenais abre uma janela de riscos que parecia fechada desde o fim da Guerra Fria.

Segundo especialistas, esta nova era combina tecnologia avançada, imprevisibilidade e a fragmentação das relações internacionais. Um cenário em que decisões rápidas — e por vezes impulsivas — podem gerar consequências globais.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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