Receber um diagnóstico de depressão, ansiedade ou outro transtorno mental costuma ser visto como o primeiro passo para um tratamento adequado. Mas o que aconteceria se o mesmo paciente passasse pela mesma entrevista diagnóstica duas vezes e recebesse respostas diferentes?
Essa é a questão levantada por uma nova revisão sistemática e meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá. O estudo analisou dezenas de pesquisas internacionais e concluiu que uma das ferramentas mais utilizadas na avaliação psiquiátrica moderna pode ser menos confiável do que muitos especialistas acreditavam.
Os resultados reacendem um debate antigo sobre os limites dos métodos utilizados para identificar transtornos mentais e sobre o papel dos manuais diagnósticos que orientam a psiquiatria contemporânea.
O método considerado padrão-ouro
O foco da pesquisa foram as chamadas Entrevistas Diagnósticas Estruturadas (SDIs, na sigla em inglês).
Essas entrevistas utilizam questionários padronizados para identificar sintomas e verificar se eles correspondem aos critérios estabelecidos por manuais de diagnóstico psiquiátrico, como o famoso Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).
A proposta é simples: ao seguir um roteiro padronizado, diferentes profissionais deveriam chegar a conclusões semelhantes ao avaliar um mesmo paciente.
Por décadas, esse modelo foi considerado uma das formas mais confiáveis de realizar diagnósticos em saúde mental.
Quando o mesmo teste gera respostas diferentes
A equipe liderada pela pesquisadora Laura Duncan analisou 57 estudos realizados em 26 países, envolvendo mais de 8 mil adultos.
O objetivo era verificar o grau de consistência dessas entrevistas quando um mesmo indivíduo era avaliado duas vezes em um curto período de tempo.
Os resultados surpreenderam os pesquisadores.
Em muitos casos, as conclusões obtidas na segunda entrevista não coincidiam com aquelas registradas na primeira avaliação.
“Se aplicarmos a mesma entrevista à mesma pessoa duas vezes, gostaríamos de acreditar que o resultado será o mesmo. Mas isso nem sempre acontece”, explicou Duncan.
Segundo a pesquisadora, os dados mostram que essas ferramentas não são tão consistentes quanto se imaginava.
Algumas condições são mais fáceis de identificar
O estudo também revelou diferenças importantes dependendo do transtorno investigado.
Os diagnósticos relacionados ao uso de substâncias apresentaram os melhores índices de confiabilidade.
Nos casos de dependência química, os resultados coincidiram em aproximadamente 72% das reavaliações.
O transtorno por uso de opioides apresentou um dos melhores desempenhos de toda a análise, com cerca de 81% de concordância entre os testes.
Já os transtornos mentais em geral apresentaram índices mais modestos.
As entrevistas voltadas para transtornos psicóticos, incluindo condições do espectro da esquizofrenia, apresentaram concordância de apenas 55%, um valor pouco superior ao acaso.
Os diagnósticos de transtorno bipolar mostraram desempenho melhor, alcançando cerca de 74% de consistência.
Por que a saúde mental é mais difícil de medir?
Os pesquisadores acreditam que parte dessa discrepância está relacionada à própria natureza dos transtornos mentais.
Diferentemente de condições médicas que podem ser identificadas por exames laboratoriais ou biomarcadores objetivos, muitos transtornos psiquiátricos dependem da descrição subjetiva das experiências vividas pelo paciente.
Sentimentos, pensamentos, emoções e percepções podem variar ao longo do tempo e ser interpretados de maneiras diferentes dependendo do contexto.
Além disso, fatores como memória, estado emocional no momento da entrevista e compreensão das perguntas podem influenciar as respostas.
Segundo Duncan, isso ajuda a explicar por que entrevistas altamente estruturadas funcionam melhor para condições associadas a comportamentos observáveis e cronologias mais claras do que para experiências psicológicas complexas.
O que isso significa para os pacientes?
Os autores reconhecem que o estudo possui algumas limitações, incluindo falhas na documentação de dados em parte das pesquisas analisadas.
Mesmo assim, eles consideram as conclusões suficientemente robustas para justificar uma reflexão sobre o uso dessas entrevistas como principal ferramenta diagnóstica.
Os pesquisadores alertam que uma segunda avaliação clínica pode resultar na revisão ou até mesmo na mudança de diagnósticos para uma parcela significativa dos pacientes.
Isso não significa que os diagnósticos psiquiátricos sejam inválidos, mas sugere que eles não devem depender exclusivamente de questionários padronizados.
Um novo olhar sobre o diagnóstico em saúde mental
Para os autores, a solução não está em abandonar as entrevistas estruturadas, mas em utilizá-las como parte de uma avaliação mais ampla.
Histórico clínico, evolução dos sintomas ao longo do tempo, contexto de vida e acompanhamento profissional contínuo devem complementar os resultados obtidos pelos questionários.
Em outras palavras, a saúde mental talvez seja complexa demais para ser resumida apenas a uma lista de perguntas e respostas.
O estudo sugere que o futuro dos diagnósticos psiquiátricos pode depender menos da busca por classificações rígidas e mais da compreensão individualizada de cada paciente. Uma mudança que, segundo os pesquisadores, pode levar a avaliações mais precisas e tratamentos mais adequados.