Discussões sobre igualdade de gênero, diversidade e novos modelos de relacionamento são cada vez mais comuns nas redes sociais e na cultura contemporânea. Ainda assim, um estudo internacional recente indica que parte da geração mais jovem mantém visões bastante tradicionais sobre papéis de gênero. A pesquisa sugere que a Geração Z vive um momento de forte contraste entre valores progressistas e ideias conservadoras.
Um terço dos jovens defende papéis tradicionais
O levantamento foi realizado pela empresa de pesquisa Ipsos em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, ligado ao King’s College London.
Os pesquisadores ouviram mais de 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, Austrália e Índia. O estudo foi divulgado por ocasião do Dia Internacional da Mulher de 2026.
Entre os resultados mais marcantes está o fato de que 31% dos homens da geração Z acreditam que uma esposa deve sempre obedecer ao marido.
O dado chama atenção quando comparado com gerações mais antigas. Entre os homens da geração dos baby boomers — nascidos entre 1946 e 1964 — apenas 13% concordam com essa afirmação.
Além disso, cerca de um terço dos homens jovens acredita que o homem deve ter a última palavra nas decisões dentro de um relacionamento, um índice superior ao observado entre pessoas mais velhas.
Segundo o pesquisador Robert Grimm, diretor de pesquisa política da Ipsos na Alemanha, parte dessa tendência pode estar ligada ao ambiente digital.
Ele afirma que os algoritmos das redes sociais tendem a amplificar mensagens mais extremas, o que pode reforçar posições mais polarizadas.
Influenciadores e redes sociais alimentam o debate
Nos últimos anos, conteúdos nas redes sociais passaram a promover estilos de vida associados a papéis tradicionais de gênero. Entre eles está o fenômeno das chamadas “tradwives” — influenciadoras que defendem um modelo doméstico tradicional para as mulheres.
Outro nome frequentemente citado nesse contexto é o influenciador Andrew Tate, conhecido por discursos controversos sobre masculinidade e relacionamentos.
Para especialistas, esses conteúdos podem contribuir para o ressurgimento de narrativas que reforçam papéis tradicionais.
Divisão dentro da própria geração
O estudo também revela diferenças importantes entre homens e mulheres da geração Z.
Entre as mulheres desse grupo, apenas 18% concordam com a ideia de que a esposa deve obedecer ao marido. Entre mulheres da geração baby boomer, o índice é ainda menor: 6%.
Esses números mostram que o conflito não ocorre apenas entre gerações, mas também dentro da própria geração Z, especialmente entre homens e mulheres.
A diretora da Ipsos para Reino Unido e Irlanda, Kelly Beaver, observa que a geração Z apresenta posições aparentemente contraditórias.
De um lado, é o grupo que mais concorda que mulheres bem-sucedidas profissionalmente são atraentes. Por outro, também é o que mais tende a afirmar que mulheres não deveriam parecer “excessivamente independentes”.
Pressões sobre o que significa “ser homem”
A pesquisa também investigou percepções relacionadas à masculinidade.
Entre os homens da geração Z:
- 30% acreditam que homens não deveriam dizer “eu te amo” aos amigos
- 43% dizem que precisam parecer fisicamente fortes
- 21% consideram que homens que participam do cuidado dos filhos são menos masculinos
Entre os baby boomers, esse último número é significativamente menor: cerca de 8%.
Para especialistas, esses dados indicam que as pressões sociais não recaem apenas sobre mulheres, mas também sobre os próprios homens.
O que as pessoas pensam — e o que acham que a sociedade espera
Outro resultado interessante da pesquisa revela uma diferença entre convicções pessoais e percepções sociais.
Apenas 17% dos entrevistados acreditam pessoalmente que as mulheres devem ser responsáveis pelo trabalho de cuidado, como cuidar da casa ou da família.
No entanto, 35% afirmam que a sociedade ainda espera que elas desempenhem esse papel.
Para a socióloga Heejung Chung, diretora do instituto do King’s College, esse dado sugere que muitas pessoas podem sentir pressão para se adequar a normas sociais que não refletem necessariamente suas próprias crenças.
Uma geração em disputa de valores
O estudo também aponta percepções sobre igualdade de gênero.
Entre os homens da geração Z:
- 61% acreditam que já se fez o suficiente pela igualdade
- 57% dizem que hoje os homens enfrentam discriminação
Para Julia Gillard, presidente do Global Institute for Women’s Leadership, esses números mostram que a geração mais jovem vive um momento de redefinição cultural.
Segundo ela, parte dos homens jovens acaba impondo expectativas restritivas às mulheres, ao mesmo tempo em que também se vê presa a normas rígidas de masculinidade.
No fundo, os dados sugerem que a geração Z está no centro de uma transformação social ainda em andamento. Enquanto muitos jovens defendem liberdade, diversidade e igualdade, outros demonstram apego a ideias tradicionais sobre relações e identidade de gênero.
Para os pesquisadores, compreender essas tensões será essencial para entender como os papéis de gênero evoluirão nas próximas décadas.
[ Fonte: DW ]