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Ciência

Estudo global mostra que um terço dos homens da geração Z acredita que a esposa deve obedecer ao marido

Uma pesquisa internacional com mais de 23 mil pessoas revelou uma tendência inesperada entre jovens da geração Z. Apesar de crescerem em um período marcado por debates sobre igualdade de gênero, muitos homens desse grupo defendem papéis tradicionais nas relações — o que evidencia tensões dentro da própria geração.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Discussões sobre igualdade de gênero, diversidade e novos modelos de relacionamento são cada vez mais comuns nas redes sociais e na cultura contemporânea. Ainda assim, um estudo internacional recente indica que parte da geração mais jovem mantém visões bastante tradicionais sobre papéis de gênero. A pesquisa sugere que a Geração Z vive um momento de forte contraste entre valores progressistas e ideias conservadoras.

Um terço dos jovens defende papéis tradicionais

O levantamento foi realizado pela empresa de pesquisa Ipsos em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, ligado ao King’s College London.

Os pesquisadores ouviram mais de 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, Austrália e Índia. O estudo foi divulgado por ocasião do Dia Internacional da Mulher de 2026.

Entre os resultados mais marcantes está o fato de que 31% dos homens da geração Z acreditam que uma esposa deve sempre obedecer ao marido.

O dado chama atenção quando comparado com gerações mais antigas. Entre os homens da geração dos baby boomers — nascidos entre 1946 e 1964 — apenas 13% concordam com essa afirmação.

Além disso, cerca de um terço dos homens jovens acredita que o homem deve ter a última palavra nas decisões dentro de um relacionamento, um índice superior ao observado entre pessoas mais velhas.

Segundo o pesquisador Robert Grimm, diretor de pesquisa política da Ipsos na Alemanha, parte dessa tendência pode estar ligada ao ambiente digital.

Ele afirma que os algoritmos das redes sociais tendem a amplificar mensagens mais extremas, o que pode reforçar posições mais polarizadas.

Influenciadores e redes sociais alimentam o debate

Nos últimos anos, conteúdos nas redes sociais passaram a promover estilos de vida associados a papéis tradicionais de gênero. Entre eles está o fenômeno das chamadas “tradwives” — influenciadoras que defendem um modelo doméstico tradicional para as mulheres.

Outro nome frequentemente citado nesse contexto é o influenciador Andrew Tate, conhecido por discursos controversos sobre masculinidade e relacionamentos.

Para especialistas, esses conteúdos podem contribuir para o ressurgimento de narrativas que reforçam papéis tradicionais.

Divisão dentro da própria geração

O estudo também revela diferenças importantes entre homens e mulheres da geração Z.

Entre as mulheres desse grupo, apenas 18% concordam com a ideia de que a esposa deve obedecer ao marido. Entre mulheres da geração baby boomer, o índice é ainda menor: 6%.

Esses números mostram que o conflito não ocorre apenas entre gerações, mas também dentro da própria geração Z, especialmente entre homens e mulheres.

A diretora da Ipsos para Reino Unido e Irlanda, Kelly Beaver, observa que a geração Z apresenta posições aparentemente contraditórias.

De um lado, é o grupo que mais concorda que mulheres bem-sucedidas profissionalmente são atraentes. Por outro, também é o que mais tende a afirmar que mulheres não deveriam parecer “excessivamente independentes”.

Pressões sobre o que significa “ser homem”

A pesquisa também investigou percepções relacionadas à masculinidade.

Entre os homens da geração Z:

  • 30% acreditam que homens não deveriam dizer “eu te amo” aos amigos

  • 43% dizem que precisam parecer fisicamente fortes

  • 21% consideram que homens que participam do cuidado dos filhos são menos masculinos

Entre os baby boomers, esse último número é significativamente menor: cerca de 8%.

Para especialistas, esses dados indicam que as pressões sociais não recaem apenas sobre mulheres, mas também sobre os próprios homens.

O que as pessoas pensam — e o que acham que a sociedade espera

Outro resultado interessante da pesquisa revela uma diferença entre convicções pessoais e percepções sociais.

Apenas 17% dos entrevistados acreditam pessoalmente que as mulheres devem ser responsáveis pelo trabalho de cuidado, como cuidar da casa ou da família.

No entanto, 35% afirmam que a sociedade ainda espera que elas desempenhem esse papel.

Para a socióloga Heejung Chung, diretora do instituto do King’s College, esse dado sugere que muitas pessoas podem sentir pressão para se adequar a normas sociais que não refletem necessariamente suas próprias crenças.

Uma geração em disputa de valores

O estudo também aponta percepções sobre igualdade de gênero.

Entre os homens da geração Z:

  • 61% acreditam que já se fez o suficiente pela igualdade

  • 57% dizem que hoje os homens enfrentam discriminação

Para Julia Gillard, presidente do Global Institute for Women’s Leadership, esses números mostram que a geração mais jovem vive um momento de redefinição cultural.

Segundo ela, parte dos homens jovens acaba impondo expectativas restritivas às mulheres, ao mesmo tempo em que também se vê presa a normas rígidas de masculinidade.

No fundo, os dados sugerem que a geração Z está no centro de uma transformação social ainda em andamento. Enquanto muitos jovens defendem liberdade, diversidade e igualdade, outros demonstram apego a ideias tradicionais sobre relações e identidade de gênero.

Para os pesquisadores, compreender essas tensões será essencial para entender como os papéis de gênero evoluirão nas próximas décadas.

 

[ Fonte: DW ]

 

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