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Eu amo o amor da capitã Janeway por café

Há 30 anos, Star Trek: Voyager procurou café em uma nébula – dando início ao hábito de bebida da melhor capitã da franquia.
Por James Whitbrook Traduzido por

Tempo de leitura: 3 minutos

De uma taça ocasional de conhaque sauriano de Kirk ao amor de Archer por chá doce, um capitão de Star Trek pode ser definido tanto por sua bebida de escolha quanto pela forma como diz ao oficial de navegação para engatar o motor de dobra. É uma escolha que diz muito sobre um personagem de maneira simples – mas nenhum capitão fez isso de forma tão memorável quanto a capitã Janeway com seu amor eterno por café em Voyager.

Há 30 anos, nas primeiras fases da primeira temporada de Star Trek: Voyager, o episódio “The Cloud” nos apresentou ao amor da capitã Janeway pelo “bom e velho” café em um momento lendário. O fato de “The Cloud” ser mais lembrado pelo sorriso irônico de Kate Mulgrew ao dizer “Tem café naquela nébula” diz muito sobre o que é, de outra forma, um episódio mediano de Star Trek – a tripulação entra na nébula na esperança de reforçar o suprimento de energia, descobre que a nébula é, na verdade, um ser orgânico e, após danificá-lo, decide reparar o estrago apesar do custo para seus recursos já limitados, pois é o que a Frota Estelar faria. O episódio é correto, mas entre esse enredo funcional está um dos melhores momentos de caracterização inicial de Janeway.

Ao entrar no refeitório transformado da nave, no meio do caos culinário habitual de Neelix, a capitã está à procura de apenas um tipo de sustento. Ela ignora a absurdidade à sua frente e descarta as tentativas suspeitas de charme de Neelix. “Ainda temos café?”, pergunta Janeway com uma expressão de exasperação que qualquer um que encarna o lema “não fale comigo antes do meu café” reconheceria. As coisas pioram quando Neelix sugere que ela evite dar mau exemplo para a tripulação usando suas rações do replicador para café e oferece seu “substituto melhor que café”. Janeway o encara com o olhar de quem está prestes a esganá-lo, e sua segurança é garantida apenas quando a capitã é chamada para a ponte, levando à icônica frase.

Naquele ponto da série, Voyager ainda tentava lidar com as implicações de estar 70 mil anos-luz distante da Federação, especialmente quanto à escassez de recursos – a premissa de “The Cloud” gira em torno disso. Curiosamente, a tripulação termina o episódio em pior situação do que começou. O amor de Janeway por café está diretamente ligado a esse dilema, simbolizando-o e refletindo o fracasso da missão. Sua pressa em buscar café (ao tentar expandir as reservas de energia da nave) leva à situação que danifica o ser na nébula e, por fim, ao fracasso. Sua frustração com Neelix quando ele sugere que ela fique sem café é quase letal. Janeway não apenas gosta de café: ela está disposta a admitir que isso pode ser uma fraqueza. Pouco lhe importa o que pensam; se você se colocar entre ela e uma xícara de café, ela vai deixar claro o erro que cometeu.

Essa paixão contrasta com o gosto mais famoso da franquia na época: o chá Earl Grey de Picard. Deixando de lado o fato de o chá ter gosto de água de lavar louça, a bebida de Picard sempre foi vista como um traço nobre. Star Trek pode se passar em uma utopia interplanetária, mas ainda é uma série produzida para um público americano, para quem o chá tem conotação exótica e de classe. O Earl Grey, em especial, evoca sofisticação, gosto refinado e uma postura intelectual. Natural que seja a bebida de um capitão com os ideais elevados de Picard.

Já o café tem um papel diferente na cultura americana: é a bebida do povo. É o “elixir” que melhora o humor e cuja falta deixa uma pessoa mal-humorada. Dar a Janeway o café como marca pessoal não apenas a humaniza, mas a torna mais real: o café às vezes é retratado como uma falha sua, uma fraqueza charmosa. Janeway pode ser uma capitã da Frota Estelar perdida no Quadrante Delta, mas também é tão humana quanto qualquer um de nós quando precisa da sua dose de cafeína.

Ao longo das sete temporadas, o amor de Janeway por café permanece, tornando-se uma característica cada vez mais afetuosa. O café é o que ela lembra como a bebida que a ajudou a vencer os Borg. Mas não perde o aspecto falho e humano: mais de uma vez, ela encara friamente alguém (geralmente Neelix) e ordena: “Café, preto” antes de seguir com seus deveres. Há 30 anos ela pode não ter encontrado café naquela nébula, mas nós encontramos uma camada profundamente humana que tornou a capitã Janeway ainda mais inesquecível.

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