Hoje, quando um satélite apresenta falhas graves ou simplesmente fica sem combustível, as opções são limitadas. Em muitos casos, ele é empurrado para uma chamada órbita cemitério ou fica abandonado no espaço, aumentando o risco de colisões. Mas isso pode mudar nos próximos anos. Engenheiros europeus trabalham em robôs espaciais capazes de reparar, reabastecer ou remover satélites em órbita, criando uma espécie de serviço de manutenção no espaço.
Um guincho espacial para satélites

Uma das iniciativas mais avançadas é a missão European Robotic Orbital Support Services (EROSS), coordenada pela empresa Thales Alenia Space e financiada pela União Europeia.
A ideia é lançar, por volta de 2028, um pequeno satélite equipado com um braço robótico. Durante a missão de demonstração, ele se aproximará de outro satélite em órbita para realizar uma inspeção completa.
Depois dessa etapa, o robô tentará capturar o satélite e demonstrar duas capacidades fundamentais: reabastecimento e manobra orbital.
Stéphanie Behar-Lafenêtre, gerente do projeto na Thales Alenia Space, compara o conceito a um guincho em uma estrada.
Segundo ela, no futuro os operadores poderão simplesmente solicitar um serviço para rebocar um satélite, realizar reparos ou fornecer combustível adicional. A proposta é oferecer manutenção mesmo para satélites que originalmente não foram projetados para receber esse tipo de assistência.
O problema dos satélites abandonados
A necessidade de manutenção orbital cresce rapidamente. Hoje existem quase 15 mil satélites operacionais em órbita ao redor da Terra, além de milhares de equipamentos antigos ou desativados.
Quando um satélite deixa de funcionar, ele pode se tornar um risco para outros veículos espaciais. Colisões podem gerar fragmentos que permanecem em órbita por décadas, aumentando o problema conhecido como lixo espacial.
Para lidar com essa situação, novas tecnologias buscam prolongar a vida útil dos satélites existentes ou removê-los de órbitas críticas quando deixam de funcionar.
Como capturar um satélite que não coopera

Um dos maiores desafios técnicos é capturar um satélite que não foi projetado para ser manipulado no espaço.
Segundo os engenheiros do projeto EROSS, muitas vezes não há nenhum ponto de fixação no equipamento. Isso significa que o robô precisa encontrar alguma estrutura robusta para agarrar.
A solução pode estar no anel metálico que conecta o satélite ao foguete durante o lançamento. Esse componente existe em cerca de três quartos das espaçonaves e costuma ser extremamente resistente.
Uma vez preso a esse anel, o robô poderia assumir o controle da atitude e da órbita do satélite, movendo-o para outra posição ou estabilizando sua rotação.
Uma nova economia de serviços espaciais
Outras empresas europeias também trabalham em soluções semelhantes. A startup francesa Exotrail, por exemplo, desenvolve um sistema chamado spacevan.
Esse veículo funciona como um “transportador espacial”, capaz de levar pequenos satélites do ponto de liberação do foguete até órbitas específicas. O sistema já voou pela primeira vez em 2023 em um lançamento da SpaceX.
Agora a empresa quer expandir suas capacidades para incluir aproximação, acoplamento e manutenção de satélites em órbita.
Outro mercado promissor é a chamada desorbitagem. Nesse processo, um veículo robótico empurra deliberadamente um satélite desativado para reentrar na atmosfera e cair em áreas seguras do oceano.
A Exotrail já anunciou uma parceria com a empresa japonesa Astroscale para demonstrar esse tipo de remoção precisa de satélites até 2030.
Desafios legais e incertezas de mercado
Apesar do potencial tecnológico, o setor ainda enfrenta desafios importantes.
Um deles é jurídico. Se dois satélites colidirem durante uma operação de manutenção, quem será responsável? E qual legislação se aplica quando uma empresa de um país opera em um satélite pertencente a outro?
Países europeus e parceiros internacionais trabalham na criação de novos marcos regulatórios para lidar com essas questões.
Outro desafio é econômico. Ainda não está claro qual será o tamanho real do mercado de manutenção orbital.
Segundo os especialistas, trata-se de um típico caso de “ovo e galinha”: as empresas precisam demonstrar que a tecnologia funciona antes que os clientes estejam dispostos a pagar por ela.
Um futuro que começa na órbita geoestacionária
O primeiro mercado relevante para esses serviços provavelmente estará na órbita geoestacionária, localizada a cerca de 36 mil quilômetros da Terra.
Essa região abriga muitos satélites de telecomunicações já envelhecidos, mas que continuam extremamente valiosos. Prolongar a vida útil dessas plataformas pode ser muito mais barato do que lançar novos equipamentos.
Empresas como a norte-americana Northrop Grumman já demonstraram esse conceito com seus Mission Extension Vehicles, que desde 2020 ajudam a prolongar a vida de satélites da operadora Intelsat.
Na Europa, iniciativas como EROSS, Exotrail, ClearSpace e D-Orbit indicam que o continente quer desempenhar um papel central nessa nova indústria.
Se os planos avançarem como esperado, até o final da década robôs capazes de capturar, reparar e rebocar satélites poderão se tornar parte rotineira da gestão do tráfego espacial — transformando a forma como a infraestrutura orbital é mantida e protegida.
[ Fonte: Euronews ]