O problema não é a estratégia — é a prática
Durante evento do IB em Brasília, Heinonen explicou que quase todos os países sabem o que precisa ser feito. O desafio é transformar planos em realidade. “O problema não é a estratégia, é a implementação. As escolas precisam de apoio real para mudar”, reforça.
Para ele, três pilares definem a base de um salto educacional: primeira infância forte, professores qualificados e motivados e reformas conectadas ao cotidiano escolar. Segundo o finlandês, os primeiros anos moldam a relação emocional da criança com a escola — e, quando essa relação começa mal, é difícil reverter ao longo da vida.
Brasil tem potencial, mas enfrenta barreiras estruturais
Heinonen vê avanços importantes no país, como a BNCC, a expansão do bilinguismo e o crescimento do IB, que já está em 79 escolas brasileiras. Em 2025, o Programa de Diploma terá 1.500 candidatos, sendo 70% no formato bilíngue.
Mas ele também alerta para entraves sérios: desigualdades regionais, falta de apoio aos docentes, barreiras linguísticas e o risco de transformar o IB em uma ferramenta que só beneficia quem já tem vantagem. “Sem investir cedo em linguagem, pedagogia e habilidades fundamentais, o sistema acaba beneficiando apenas quem já tem vantagem”, afirma.
Ele cita exemplos inspiradores, como Peru, Índia, Costa Rica, Indonésia e Colômbia, que incorporaram o IB às políticas nacionais e investiram desde a infância para evitar que a tecnologia acentuasse desigualdades.
IA na educação: ferramenta ou substituto perigoso?

O ponto mais sensível da entrevista surge quando Heinonen fala sobre inteligência artificial na educação. Para ele, a IA é poderosa, mas também carrega riscos emocionais pouco discutidos. “A IA nunca discorda, nunca está cansada, está sempre disponível. Isso é perigoso. Os amigos reais se tornam piores em comparação, e a autoimagem do jovem se distorce”, alerta.
Heinonen teme o avanço da IA como “companheira emocional” de adolescentes. Segundo ele, o risco é menor quando professores usam a ferramenta e maior quando os alunos recorrem a ela para substituir vínculos reais. A solução? Transformar a IA em tema pedagógico: “As escolas devem ensinar alunos a trabalhar com a IA, criar com ela, entender como ela funciona e gerenciar sua relação emocional com a tecnologia.”
E ele é categórico: educação não deve começar pela tecnologia, mas pelo problema que queremos resolver.
Clima, desigualdade e saúde mental: discutir ou evitar?
Ao contrário de quem defende evitar debates complexos com jovens, Heinonen acredita que temas como clima, desigualdade e saúde mental devem estar na escola. O problema não é falar — é como falar.
Temas difíceis podem gerar dois caminhos nos adolescentes: apatia e cinismo ou engajamento e esperança. O papel da escola, diz ele, é canalizar ansiedade em ação coletiva. Ele cita o Festival da Esperança, realizado no Brasil, como exemplo de projeto que transforma preocupação em pertencimento.
Programas do IB, como o CAS (Criatividade, Atividade e Serviço), ajudam os estudantes a conectar propósito, comunidade e bem-estar. “Ajudar outra pessoa é uma das melhores formas de ajudar a si mesmo”, afirma.
Brasil pode copiar o modelo finlandês? Heinonen responde
Curiosamente, a resposta é não. “Resultados educacionais não podem ser escalados. Pessoas precisam passar pelo processo de aprendizado, não basta importar métodos.” Para ele, Finlandia e Brasil compartilham pontos essenciais — professores comprometidos e debates sobre bem-estar docente — mas operam em escalas muito diferentes.
Ainda assim, o recado final é otimista: os princípios humanos que sustentam boa educação são universais. O desafio é ter tempo, consistência e coragem política para aplicá-los.
O que fica para o futuro
As ideias de Heinonen revelam um alerta global: tecnologia e IA podem fortalecer a educação, mas também podem ferir vínculos sociais essenciais. O Brasil está diante de uma chance rara — usar inovação para reduzir desigualdades, apoiar professores e preparar jovens para um mundo veloz. A pergunta é: vamos conseguir transformar boas estratégias em prática antes que a defasagem fique irreversível?
[Fonte: Correio Braziliense]