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Explosão de afastamentos de professores por saúde mental em Campinas

Uma frase resume o drama que cresce dentro das escolas: “queria meu cérebro de volta”. Em 2025, Campinas registrou um número alarmante de afastamentos de professores por transtornos mentais, revelando um cenário de sobrecarga, pressão e adoecimento silencioso que atinge diariamente educadores da rede estadual.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Números que acendem o alerta nas escolas

Entre janeiro e setembro de 2025, Campinas contabilizou 3.356 licenças médicas de docentes por transtornos mentais e comportamentais. Isso representa uma média de 12 afastamentos de professores por dia.

Os dados, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, se referem a licenças classificadas pelo CID-10, padrão internacional de diagnóstico médico. Em todo o estado de São Paulo, foram 25.699 registros de afastamentos de professores no mesmo período.

Relatos de docentes apontam uma rotina marcada por sobrecarga de trabalho, baixos salários, pressão constante da gestão, falta de estrutura e episódios de violência dentro das escolas.

Burnout, ansiedade e o peso da pressão diária

Explosão de afastamentos de professores por saúde mental em Campinas
© Pexels

Entre os casos mais graves está o de uma professora que preferiu não se identificar. Ela afirmou ter sofrido desmaios dentro da própria escola. Depois de meses de exaustão, recebeu o diagnóstico de burnout, um quadro extremo de esgotamento físico e emocional ligado ao trabalho.

Ao retornar da licença, a professora foi abordada pela gestão e relatou ter sido pressionada a assinar uma carta pedindo seu próprio desligamento. Segundo ela, o pedido foi feito de forma coercitiva.

Mesmo mudando de escola, a docente afirma que os efeitos emocionais permanecem. A instabilidade profissional e as sequelas do estresse continuam afetando sua vida.

Outro caso envolve uma professora com 22 anos de carreira, que teve sua primeira crise de ansiedade ao assumir um cargo de coordenação. O episódio aconteceu dentro do banheiro da escola, onde ela teve uma crise de choro e precisou ser socorrida por colegas.

Posteriormente, ela descobriu que o problema estava relacionado a um caso de assédio moral praticado por um diretor recém-chegado. Segundo seu relato, havia cobranças constantes, intimidação e desrespeito em momentos de crise.

Assédio moral e falta de apoio agravam os transtornos mentais

Representantes do Centro do Professorado Paulista afirmam que a falta de suporte psicossocial agrava a situação. Casos de violência escolar, pressão por resultados e dificuldade de acesso a acompanhamento psicológico pioram ainda mais os transtornos mentais vividos por professores.

Um ponto crítico está no processo de perícia médica. Segundo relatos, há casos em que o pedido de afastamento é negado após atendimentos considerados superficiais.

A Secretaria Estadual da Educação informou que mantém programas de atendimento psicológico e psiquiátrico, com mais de 650 mil atendimentos realizados. A pasta também afirmou que os pedidos de licença passam por análise individual e que repudia práticas de assédio, orientando o uso de canais oficiais para denúncias.

Mesmo assim, o número crescente de afastamentos de professores por transtornos mentais mostra que as medidas ainda não são suficientes para conter o avanço do problema.

O impacto invisível na educação e na vida dos docentes

Especialistas apontam que o burnout deixou de ser exceção e passou a ser parte da realidade de muitos educadores. O esgotamento crônico afeta memória, concentração, sono e autoestima, prejudicando tanto a saúde do professor quanto a aprendizagem dos alunos.

A frase “queria meu cérebro de volta” não é só um desabafo. Ela simboliza a perda da capacidade de trabalhar, ensinar e viver com equilíbrio, causada por um sistema que exige cada vez mais, mas oferece cada vez menos suporte.

Um problema que não pode mais ser ignorado

O avanço dos afastamentos de professores por transtornos mentais em Campinas é um alerta claro. Sem mudanças estruturais, acolhimento real e combate ao assédio, o número de casos tende a crescer. Enquanto isso, milhares de educadores seguem tentando sobreviver emocionalmente dentro de salas de aula que deveriam ser espaços de construção, não de adoecimento.

[Fonte: G1 – Globo]

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