A energia solar e outras fontes renováveis avançaram tão rápido no Brasil que agora o setor elétrico enfrenta um novo desafio: lidar com o excesso de eletricidade. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) apresentou à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) um plano emergencial para reduzir a injeção de energia em momentos de sobra — uma espécie de “freio de emergência” no sistema.
Quando energia demais vira problema
O plano, chamado Plano Emergencial de Gestão de Excedentes, define que, quando o sistema estiver saturado e todas as alternativas operacionais forem esgotadas, o ONS poderá ordenar o corte temporário de geração em pequenas e médias usinas. Isso inclui PCHs (pequenas centrais hidrelétricas), usinas eólicas, solares e de biomassa conectadas diretamente à rede de distribuição.
A medida seria rotativa, durando algumas horas por dia, e só aplicada em último caso. Segundo o diretor de Operação do ONS, Christiano Vieira, essa é uma “ação técnica essencial” para garantir a estabilidade da rede, especialmente em períodos de baixa demanda e alta produção solar.
O avanço da geração distribuída
A chamada geração distribuída — quando consumidores produzem sua própria energia, geralmente por meio de painéis solares — cresceu de forma acelerada nos últimos anos. Isso transformou o consumidor em um pequeno gerador, injetando energia diretamente na rede.
Mas essa descentralização também trouxe um novo desafio: como equilibrar a oferta e o consumo em tempo real. Em feriados e fins de semana, por exemplo, o consumo cai, mas a geração solar continua alta. O resultado? Risco de instabilidade e oscilações de tensão.
Distribuidoras apoiam, mas querem regras claras
Distribuidoras como a CPFL Energia e a Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) apoiam a proposta, mas pedem segurança regulatória.
“O corte de geração é um tema de urgência. Ou fazemos diferente, ou teremos uma instabilidade insustentável”, disse Gustavo Estrella, presidente da CPFL, ao portal Poder360. Já Marcos Madureira, presidente da Abradee, reforça que o plano precisa vir acompanhado de regras que deem segurança jurídica e operacional para quem opera a rede.
Tarifa inteligente como parte da solução
A Aneel também avalia formas de modernizar o modelo tarifário, com projetos-piloto que testam tarifas diferenciadas conforme o horário de consumo. A ideia é incentivar o uso de energia nos momentos em que há sobra e reduzir o consumo nos picos de demanda.
Segundo Estrella, países como a China já usam esse tipo de sinal tarifário para compensar a intermitência das fontes renováveis. Essa abordagem pode ser crucial para evitar desperdícios e equilibrar o sistema de forma sustentável.
O Brasil vive um paradoxo energético: ao mesmo tempo em que avança na transição verde, precisa aprender a lidar com a abundância de energia limpa. O desafio agora é encontrar o ponto de equilíbrio entre inovação, estabilidade e sustentabilidade — antes que o excesso se torne um novo tipo de crise.
[Fonte: Poder360]