Dividir um apartamento normalmente significa compartilhar contas, espaços e, às vezes, até roupas. Mas uma nova pesquisa sugere que colegas de casa também compartilham algo muito menos visível: parte significativa das bactérias que vivem em seus corpos.
Cientistas da Universidade de Trento, na Itália, descobriram que pessoas que moram sob o mesmo teto apresentam microbiomas muito mais parecidos do que indivíduos da mesma comunidade que vivem separados. O resultado mais impressionante apareceu na boca: cerca de um quarto das bactérias orais era compartilhado entre moradores da mesma residência. Entre casais, essa porcentagem chegava a quase metade.
A descoberta ajuda a esclarecer como os microrganismos circulam entre as pessoas ao longo da vida e pode abrir novos caminhos para entender a relação entre microbioma e saúde.
O universo invisível que vive dentro de nós
O corpo humano abriga trilhões de microrganismos. Bactérias, fungos e outros micróbios formam comunidades complexas conhecidas como microbiomas.
Esses ecossistemas microscópicos desempenham funções fundamentais, ajudando na digestão, protegendo contra patógenos e influenciando processos metabólicos e imunológicos.
Nas últimas décadas, diversos estudos mostraram que fatores como parto, alimentação, ambiente familiar e uso de medicamentos ajudam a moldar o microbioma durante os primeiros anos de vida.
Mas ainda existe uma questão em aberto: de onde vêm os novos microrganismos que adquirimos quando adultos?
Foi justamente essa pergunta que motivou a nova pesquisa.
O estudo analisou pessoas na Itália e em Fiji
Para investigar o fenômeno, os pesquisadores analisaram dados genéticos dos microbiomas intestinais e orais de 430 pessoas distribuídas em 207 residências na Itália e em Fiji.
Em vez de observar apenas quais espécies estavam presentes, a equipe examinou cepas específicas de bactérias. Essa abordagem permite identificar com muito mais precisão se duas pessoas compartilham exatamente os mesmos microrganismos.
Os resultados mostraram uma diferença clara entre quem morava junto e quem apenas vivia na mesma comunidade.
Pessoas que compartilhavam a mesma casa apresentavam cerca de 19% das cepas bacterianas intestinais em comum e aproximadamente 26% das bactérias da boca.
Já entre indivíduos que moravam em locais diferentes, mesmo pertencendo à mesma comunidade, a semelhança era muito menor: apenas 6% no microbioma intestinal e praticamente zero no microbioma oral.
Casais compartilham ainda mais bactérias
O grupo que apresentou os níveis mais elevados de compartilhamento foi o dos casais.
Segundo o estudo, parceiros românticos dividiam cerca de 44% das cepas bacterianas presentes na boca.
Os pesquisadores acreditam que comportamentos íntimos, como beijos frequentes, sejam uma das principais explicações para essa troca intensa de microrganismos.
No entanto, o contato direto não é o único fator envolvido.
Compartilhar ambientes, utensílios, alimentos e superfícies diariamente também cria inúmeras oportunidades para a circulação de bactérias entre as pessoas.
O estudo mostra que nossos microbiomas continuam sendo moldados pelo ambiente mesmo décadas após a infância.
Nem todas as bactérias compartilhadas são inofensivas
Embora a maioria dos microrganismos que habitam o corpo humano seja benéfica ou neutra, os pesquisadores encontraram um detalhe que chamou atenção.
As cepas bacterianas mais facilmente transmitidas entre indivíduos apresentavam, em alguns casos, associações com determinadas doenças.
Entre as bactérias intestinais mais transmissíveis estavam algumas ligadas ao diabetes tipo 2 e a problemas cardiovasculares. Já certas bactérias da boca estavam associadas a infecções oportunistas ou ao aumento do risco de câncer colorretal.
Isso não significa que morar com alguém cause essas doenças.
Os cientistas acreditam que esses microrganismos possam possuir características biológicas que facilitam tanto sua transmissão entre pessoas quanto sua sobrevivência em ambientes associados a processos inflamatórios.
O que essa descoberta revela sobre a saúde humana
A pesquisa reforça uma ideia cada vez mais importante para a ciência: o microbioma não é um sistema isolado dentro de cada indivíduo.
Ele funciona como um ecossistema dinâmico que interage constantemente com o ambiente e com as pessoas ao redor.
Compreender como essas trocas acontecem poderá ajudar cientistas a desenvolver estratégias para manipular microbiomas de forma benéfica, seja para prevenir doenças, melhorar tratamentos ou restaurar comunidades bacterianas saudáveis após infecções e uso de antibióticos.
Por enquanto, a principal conclusão é simples e curiosa ao mesmo tempo.
Ao compartilhar uma casa, dividimos muito mais do que imaginamos. Além dos hábitos, dos espaços e das experiências do dia a dia, também carregamos conosco uma pequena parte do universo microscópico das pessoas que vivem ao nosso lado.