A saúde mental, muitas vezes invisível, é hoje reconhecida como um dos maiores desafios globais de saúde pública. Dois relatórios recentes da OMS mostram que milhões de pessoas convivem com ansiedade, depressão ou outros transtornos sem receber tratamento adequado. O problema é estrutural e afeta principalmente mulheres, jovens e populações de países de baixa renda.
Números que revelam a dimensão da crise
De acordo com a OMS, uma em cada sete pessoas no planeta tem um transtorno mental. A prevalência é maior em mulheres (14,8%) do que em homens (13%). A depressão e a ansiedade são as condições mais comuns, mas os dados vão além:
- 71% das pessoas com psicoses não recebem atendimento especializado.
- Em países de baixa e média renda, apenas 1,4% ou menos do orçamento da saúde é destinado à saúde mental.
- Em 2021, houve aproximadamente 727 mil mortes por suicídio, uma das principais causas de morte entre jovens.
- A pandemia agravou desigualdades: episódios de depressão maior subiram quase 30% entre mulheres e 24% entre homens.
Outro dado preocupante é que a maioria dos transtornos começa cedo: um terço antes dos 14 anos, metade antes dos 18 e dois terços antes dos 25. Entre pessoas com mais de 70 anos, 14% convivem com algum transtorno, especialmente depressão e ansiedade.
O peso econômico e social
Além da dor emocional, a crise traz um custo gigantesco. Só a depressão e a ansiedade geram perdas anuais de produtividade de US$ 1 trilhão. A isso somam-se os gastos diretos de tratamento, que sobrecarregam sistemas de saúde e famílias, sobretudo em países onde o pagamento é do próprio bolso.
O Atlas 2024: avanços tímidos e grandes lacunas
O Atlas de Saúde Mental 2024, que analisou 144 países, mostrou algum progresso em políticas e estratégias, mas os números permanecem estagnados. A média global de investimento segue em torno de 2% do orçamento de saúde desde 2017. A diferença entre países é abissal: US$ 65 per capita em nações ricas contra apenas US$ 0,04 em países pobres.
Outro desafio é a falta de profissionais. A média mundial é de 13 especialistas por 100 mil habitantes, com carência crítica em regiões vulneráveis. A assistência continua centrada em hospitais psiquiátricos, muitas vezes com internações prolongadas e involuntárias. Embora 71% dos países declarem integrar a saúde mental à atenção primária, ainda persistem falhas de cobertura e desigualdades no acesso.
Caminhos para transformar a realidade
A OMS destaca cinco prioridades urgentes:
- Financiamento estável proporcional ao peso da doença.
- Expansão da atenção comunitária, com foco na integração à atenção primária.
- Formação e retenção de profissionais, garantindo distribuição equitativa.
- Sistemas de informação confiáveis, para medir impacto e orientar políticas.
- Respeito aos direitos humanos, reduzindo internações prolongadas e forçadas.
Uma janela de oportunidade em 2025
O próximo grande marco será a Reunião de Alto Nível da ONU sobre Saúde Mental e Bem-Estar, em setembro de 2025, em Nova York. Para a OMS, trata-se de uma chance única de colocar a saúde mental no centro da agenda internacional, com compromissos claros, financiamento adequado e mecanismos de prestação de contas.
Mais do que números, este é um chamado à ação. A saúde mental é um direito humano e cuidar dela é investir no futuro das pessoas, das comunidades e das economias.