Nos últimos anos, uma ideia ganhou espaço no debate sobre carreira: o sucesso não dependeria mais de um diploma universitário. Impulsionada por histórias vindas do Vale do Silício, essa visão sugere que talento e prática superam qualquer formação formal. Mas quando saímos do discurso e olhamos os dados reais do mercado de trabalho, a história começa a mudar — e de forma mais significativa do que parece à primeira vista.
Os números que desafiam o discurso dominante
Durante muito tempo, nomes como Mark Zuckerberg ajudaram a consolidar a ideia de que a universidade deixou de ser essencial. A narrativa é sedutora: abandonar o ensino formal, apostar em habilidades práticas e ainda assim alcançar o sucesso.
Mas quando analisamos os dados, a realidade se mostra bem menos simples.
De acordo com a Encuesta de Población Activa, a taxa de desemprego entre pessoas com ensino superior gira em torno de 5,7%. Já entre aqueles que não completaram a educação básica, o número ultrapassa os 20%. Mesmo quem concluiu níveis intermediários de ensino ainda enfrenta taxas significativamente mais altas.
A tendência não é exclusiva de um país. Dados da Eurostat mostram um padrão semelhante em escala continental: quanto maior o nível de educação, menor o risco de desemprego.
Isso não significa que o diploma garante sucesso automático. Mas revela algo importante: ele ainda funciona como uma barreira de entrada que reduz riscos no mercado de trabalho.

A diferença entre entrar no mercado e se manter nele
Apesar dessa vantagem inicial, o impacto do ensino superior não é uniforme ao longo da vida profissional. Um dos fatores mais relevantes nessa equação é a experiência.
Entre jovens de 20 a 24 anos, mesmo aqueles com formação universitária enfrentam dificuldades para conseguir o primeiro emprego. As taxas de desemprego nessa faixa ainda são relativamente altas, refletindo um problema estrutural: a transição entre estudo e mercado.
No entanto, esse cenário muda rapidamente com o tempo. À medida que a experiência profissional aumenta, a empregabilidade melhora de forma consistente. Entre profissionais mais maduros, a taxa de desemprego cai significativamente.
Esse padrão revela uma dinâmica importante: a universidade pode abrir a porta, mas não garante permanência. O que sustenta a trajetória no longo prazo é a combinação entre formação e experiência prática.
O novo fator que as empresas passaram a valorizar
Se os dados desmontam parte do discurso de que o diploma perdeu valor, eles também apontam para uma mudança relevante no que as empresas realmente buscam.
Segundo relatórios recentes do mercado de trabalho, como a guia da Hays, mais de 60% das empresas afirmam priorizar habilidades comportamentais. Comunicação, adaptabilidade e trabalho em equipe passaram a ter um peso decisivo nos processos de contratação.
Isso não substitui o valor da formação acadêmica, mas muda seu papel. O diploma deixa de ser um diferencial isolado e passa a funcionar como base. A partir daí, o que define a velocidade de crescimento profissional são competências que vão além do currículo tradicional.
A resposta ao título está justamente nesse equilíbrio: a universidade ainda importa — e bastante —, mas não da mesma forma que antes. Ela continua sendo um fator que reduz o risco de desemprego e facilita a entrada no mercado, mas precisa ser complementada por habilidades práticas e comportamentais.
No fim das contas, o discurso de que “o diploma não importa” simplifica demais uma realidade muito mais complexa. Ele não é tudo. Mas definitivamente ainda não deixou de fazer diferença.