Se antes o trabalho era algo restrito ao ambiente profissional, hoje ele virou conteúdo nas redes sociais. Impulsionada principalmente pela geração Z, uma nova tendência vem ganhando força: compartilhar o dia a dia no emprego, com humor, críticas e até momentos delicados. O chamado “WorkTok” não é apenas entretenimento — ele reflete mudanças culturais importantes sobre como jovens encaram o trabalho, a carreira e a própria identidade.
O que é o “WorkTok” e por que ele viralizou

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O termo “WorkTok” surgiu para descrever vídeos publicados em plataformas como TikTok e Instagram que mostram a rotina profissional. A maioria dos criadores é jovem e usa a hashtag para agrupar conteúdos que vão desde esquetes humorísticas até relatos mais pessoais.
Ao explorar essa tendência, é possível encontrar vídeos de rotinas de escritório, bastidores de diferentes profissões, desabafos sobre chefes e até transmissões de demissões. Dentro desse universo, surgiu também o “Quittok”, uma subcategoria em que usuários explicam por que querem pedir demissão — alguns registrando esse momento em vídeo.
Os números mostram que não se trata de algo pontual. A hashtag já acumula centenas de milhares de publicações e bilhões de visualizações, consolidando o fenômeno como parte da cultura digital atual.
Como a pandemia ajudou a impulsionar a tendência
O crescimento do “WorkTok” está diretamente ligado ao período da pandemia. A partir de 2020, com a adoção massiva do trabalho remoto, muitas pessoas passaram a compartilhar mais aspectos da vida cotidiana nas redes — incluindo o trabalho.
Sem o contato presencial com colegas, os vídeos passaram a funcionar como uma espécie de substituto para interações informais do dia a dia. Aqueles momentos de conversa no café ou no corredor foram, em parte, transferidos para o ambiente digital.
Comunidade, validação e identidade
Segundo especialistas, o sucesso contínuo dessa tendência está ligado à necessidade de pertencimento. A executiva britânica Sara McCorquodale, que atua no setor de influência digital, explicou em entrevista à BBC que esses conteúdos funcionam como uma forma de criar comunidade e buscar validação online.
Para muitos jovens, especialmente aqueles que trabalham remotamente ou têm pouca interação no ambiente profissional, compartilhar experiências nas redes ajuda a preencher esse vazio social.
Além disso, expor a própria rotina de trabalho também se tornou uma forma de construir identidade. Ao narrar suas conquistas, frustrações e desafios, os criadores assumem o controle da própria história profissional — sem depender exclusivamente da visão da empresa.
Uma nova relação com o trabalho
O “WorkTok” também reflete uma mudança geracional. Diferentemente de gerações anteriores, a geração Z tende a valorizar mais o bem-estar e a saúde mental do que ascensões rápidas ou jornadas exaustivas.
Essa postura aparece nos vídeos, que frequentemente abordam temas como esgotamento, insatisfação profissional e a busca por equilíbrio. Em vez de glorificar o excesso de trabalho, muitos conteúdos criticam essa lógica.
Os riscos de transformar o trabalho em conteúdo

Apesar da popularidade, o fenômeno não está livre de controvérsias. Compartilhar detalhes do ambiente de trabalho ou gravar durante o expediente pode gerar consequências.
Há casos de funcionários que foram demitidos após publicar vídeos relacionados ao trabalho. Empresas argumentam que esse tipo de conteúdo pode violar regras internas, expor informações sensíveis ou prejudicar a imagem da marca.
Isso coloca um desafio tanto para empregadores quanto para funcionários: encontrar um equilíbrio entre expressão pessoal e responsabilidade profissional.
Um fenômeno que veio para ficar
Tudo indica que o “WorkTok” não é uma moda passageira. Ele representa uma transformação mais ampla na forma como o trabalho é percebido e compartilhado.
À medida que as fronteiras entre vida pessoal e profissional continuam se misturando, as redes sociais se tornam palco dessas mudanças. O desafio agora é entender até onde vai essa exposição — e quais serão os novos limites dessa relação entre trabalho e conteúdo digital.
[ Fonte: Xataka ]