Durante séculos, a humanidade questionou se aquilo que percebe é realmente “real”. Hoje, essa dúvida ganhou uma nova roupagem científica. Um físico da Universidade de Portsmouth propõe que o universo pode ser entendido como um sistema computacional, regido não apenas por leis físicas tradicionais, mas também por princípios ligados à informação. A ideia é provocadora — e pode mudar a forma como entendemos o cosmos.
Uma teoria que aproxima física e computação
O responsável pela proposta é Melvin Vopson, pesquisador da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido. Seus estudos partem de uma hipótese que vem ganhando espaço nos últimos anos: a de que a informação pode ser tão fundamental quanto a matéria e a energia.
Segundo Vopson, o universo poderia operar como um sistema otimizado para processar dados. Isso significa que eventos físicos não seriam apenas interações de partículas e forças, mas também transformações de informação.
A ideia dialoga com debates antigos — que vão da filosofia de Platão até produções modernas como “Matrix”. A diferença é que, agora, a discussão tenta se apoiar em observações científicas e modelos teóricos.
A proposta de uma nova lei da física

Um dos pontos centrais da teoria é o que Vopson chama de “Segunda Lei da Infodinâmica”. Ela surge como um contraponto à Segunda Lei da Termodinâmica, que afirma que a entropia — ou o nível de desordem — tende sempre a aumentar em sistemas fechados.
Na visão do pesquisador, quando olhamos para a informação, o comportamento pode ser diferente. Em certos contextos, a entropia informacional poderia se manter estável ou até diminuir, sugerindo que existe um tipo de organização invisível atuando no universo.
Essa ideia indicaria que a realidade não caminha apenas rumo ao caos, como prevê a termodinâmica clássica, mas também segue uma lógica de otimização de informação.
Impactos que vão além da física
A hipótese não se limita ao campo da física teórica. Vopson também sugere implicações na biologia, especialmente na forma como entendemos a evolução.
De acordo com suas análises, mutações genéticas poderiam não ser totalmente aleatórias. Em vez disso, poderiam seguir padrões associados à eficiência no processamento de informação.
Um dos exemplos citados envolve estudos sobre o vírus SARS-CoV-2. O pesquisador aponta possíveis correlações entre mudanças genéticas e princípios de organização informacional, sugerindo que a evolução biológica pode ser guiada por algo além do acaso e da seleção natural.
Entre ciência e especulação
Apesar do interesse que a teoria desperta, a comunidade científica ainda trata a proposta com cautela. Especialistas destacam que faltam evidências sólidas para sustentar a ideia de que o universo funciona como um sistema computacional.
Veículos de divulgação científica, como o site IFLScience, ressaltam que a hipótese da simulação continua no campo especulativo. Até agora, não há provas diretas de que a realidade seja, de fato, uma espécie de “programa”.
Ainda assim, o trabalho de Vopson contribui para um debate mais amplo, que une física, filosofia e tecnologia. Afinal, se a informação for realmente uma peça central do universo, isso pode abrir novos caminhos para compreender desde partículas subatômicas até a própria consciência.
Uma pergunta que continua em aberto
A teoria levanta uma questão difícil de ignorar: o universo é apenas matéria e energia, ou também um sistema que processa informação de forma estruturada?
Por enquanto, não há uma resposta definitiva. Mas a proposta reforça algo que a ciência já mostrou muitas vezes: quanto mais avançamos no entendimento do cosmos, mais profundas — e desconcertantes — se tornam as perguntas.
Seja como for, a ideia de que a realidade pode funcionar como um código continua intrigando cientistas e curiosos. E talvez estejamos apenas começando a entender o que isso realmente significa.