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Ciência

Falcões de fogo: as aves que espalham incêndios para caçar e intrigam a ciência

Cientistas australianos confirmaram o que povos indígenas já sabiam há séculos: algumas aves de rapina usam o fogo como ferramenta de caça. Conhecidas como “falcões de fogo”, essas aves pegam galhos em chamas e os lançam em áreas secas para provocar novos focos de incêndio e capturar presas em fuga.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A ideia de que apenas os humanos dominam o uso do fogo está sendo desafiada por novas pesquisas. Estudos recentes mostram que algumas aves de rapina utilizam focos de incêndio de forma intencional para expandir seu território de caça. Esse comportamento, registrado há anos por comunidades indígenas, agora atrai a atenção da ciência por seu grau de complexidade e por representar uma estratégia adaptativa impressionante no reino animal.

 

As espécies envolvidas e como agem

Falcoe Incendio 1
© John Bell – Unsplash

As protagonistas desse fenômeno são três espécies de aves: o milhafre-preto (Milvus migrans), o milhafre-assobiador (Haliastur sphenurus) e o falcão-marrom (Falco berigora). Elas foram vistas transportando gravetos ainda em brasa de um incêndio já em andamento e soltando-os em áreas secas ainda não queimadas, provocando a expansão do fogo.

Esse comportamento permite que pequenos mamíferos, répteis e insetos — que normalmente se esconderiam na vegetação — sejam forçados a sair de seus abrigos, facilitando a caçada. As aves, então, sobrevoam o fogo e atacam suas presas em fuga.

 

Registros em várias partes do mundo

O fenômeno foi registrado em regiões do norte da Austrália, como Queensland, o Território do Norte e a Austrália Ocidental. Quem primeiro observou e relatou esses comportamentos foram as comunidades indígenas australianas, que os integraram em sua cosmologia e práticas culturais. Mais recentemente, bombeiros, pecuaristas e biólogos também confirmaram esses avistamentos.

Segundo relatos de indígenas, os falcões de fogo “pegam galhos em chamas e os soltam várias vezes até provocarem um novo incêndio”. Mas a prática não se restringe ao território australiano. Avistamentos semelhantes foram registrados em locais como Papua-Nova Guiné, Brasil, Panamá, Estados Unidos e regiões da África Ocidental e Oriental.

 

Estudo e documentação científica

O ornitólogo Mark Bonta, autor de um estudo publicado em 2017 na Journal of Ethnobiology, destacou que a ciência está apenas começando a reconhecer a importância desse comportamento. “Elas veem fumaça e vão. Pegam galhos em brasa e os soltam até provocar incêndios do outro lado de estradas, rios ou barreiras feitas pelo homem”, explicou.

Bonta e sua equipe passaram anos reunindo dados de estudos antropológicos e ornitológicos, além de conduzir entrevistas com bombeiros, criadores de gado, pesquisadores de campo e moradores das regiões afetadas. Os depoimentos indígenas foram fundamentais para a reconstrução do comportamento das aves em diferentes cenários.

 

As implicações do uso do fogo por aves

Crise Climatica
© Matt Palmer- Unsplash

A constatação de que aves usam o fogo como ferramenta tem implicações profundas. Ela desafia a ideia de que somente os seres humanos manipulam esse elemento de maneira estratégica. Também revela níveis elevados de inteligência, planejamento e capacidade de adaptação dessas espécies.

Para os cientistas, trata-se de um campo de estudo ainda pouco explorado, mas com enorme potencial para revelar novas dimensões do comportamento animal. “É um tema fascinante”, afirma Bonta, que defende a valorização do conhecimento tradicional aliado à ciência para compreender melhor as interações entre fauna, ecossistemas e fenômenos naturais como o fogo.

 

O comportamento dos “falcões de fogo” mostra que a natureza ainda guarda surpresas sobre a inteligência animal. essas aves ampliam nosso entendimento sobre estratégias evolutivas — e reforçam a importância de unir saberes indígenas e ciência moderna para desvendar os segredos do mundo natural.

 

[ Fonte: Canal26 ]

 

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