A declaração reacende um debate que se arrasta há décadas entre a União Europeia e o Mercosul. Embora o acordo comercial tenha sido finalmente concluído em 2024 e aprovado pela Comissão Europeia em setembro de 2025, sua entrada em vigor depende da ratificação de todos os 27 Estados-membros da UE. A França, que historicamente demonstra resistência, reafirmou que seguirá bloqueando o processo sem mudanças consideradas essenciais para proteger a agricultura francesa e sua política ambiental.
Pressão interna e defesa do setor agrícola francês
A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, afirmou neste domingo (09/11/2025) que o país “não assinará” o acordo nas condições atuais. Segundo ela, o pacto colocaria os agricultores franceses em desvantagem, especialmente diante da concorrência de países onde os custos de produção são menores e as regras ambientais, mais flexíveis.
“Queremos apoiar nossos agricultores e, por isso, a França não firmará um acordo que, no longo prazo, os condenaria”, declarou Genevard ao jornal Journal du Dimanche (JDD). A ministra reforçou que há “linhas vermelhas” que o governo não pretende ultrapassar, ecoando reivindicações de associações de produtores rurais que temem perda de competitividade e queda de preços no mercado interno.
A agricultura tem peso político significativo na França. O país é o maior produtor agrícola da União Europeia e conta com organizações de produtores historicamente articuladas e influentes. Nos últimos anos, essas entidades se tornaram ainda mais atuantes diante de debates sobre transição ambiental, uso de defensivos agrícolas e abertura comercial.
Macron tenta manter abertura ao diálogo
Embora a ministra tenha sido categórica, o presidente Emmanuel Macron adotou nos últimos dias um tom mais cauteloso. Durante uma visita ao Brasil, Macron afirmou estar “bastante positivo” sobre a possibilidade de avançar com o acordo, ainda que tenha enfatizado que a França permanece “vigilante”.
A diferença de tom entre presidente e ministra reflete o delicado equilíbrio político interno. Macron busca manter a imagem da França como defensora do multilateralismo e do comércio internacional, ao mesmo tempo em que evita desgaste com agricultores, um grupo eleitoral crucial principalmente no interior do país.
Cláusulas de salvaguarda e exigências ambientais
Para que o país considere avançar, o governo francês exige três pontos principais:
- Cláusula de salvaguarda agrícola: um mecanismo que permita suspender importações caso ocorra desestabilização do mercado europeu.
- Proibição de entrada de produtos fora das normas da UE: especialmente no que se refere ao uso de pesticidas e padrões ambientais.
- Reforço das inspeções sanitárias: com procedimentos de controle mais rigorosos na fronteira.
Essas condições já haviam sido levantadas em negociações anteriores e refletem o núcleo da crítica francesa: enquanto os agricultores europeus são obrigados a cumprir regras ambientais e sanitárias rígidas, produtores de países do Mercosul não estariam sujeitos aos mesmos padrões, criando concorrência considerada “desleal”.
O impasse político e os próximos passos
Com a necessidade de aprovação unânime pelos 27 países da União Europeia, qualquer objeção pode paralisar o acordo. Além da França, outros membros da UE já expressaram reservas, embora com menor intensidade. Países que apoiam o pacto argumentam que ele pode fortalecer cadeias produtivas, aumentar a integração econômica e ampliar mercados de exportação.
Para o Mercosul, especialmente Brasil e Argentina, o acordo é visto como uma oportunidade estratégica para ampliar o comércio com um dos blocos mais ricos do mundo, diversificando exportações e atraindo investimentos.
No entanto, enquanto a França optar por não ratificar, o acordo permanecerá travado. O resultado desse impasse dependerá de negociações políticas, concessões ambientais e do cenário interno francês — onde, mais do que economia, está em jogo o peso simbólico e histórico da agricultura no país.
[ Fonte: DW ]