A ideia de que cada geração se torna “mais inteligente” do que a anterior ganhou força ao longo do século XX. Esse fenômeno ficou conhecido como James R. Flynn, que observou aumentos graduais nas pontuações médias de testes de QI em diversos países.
Mas, nas últimas décadas, alguns indicadores sugerem estagnação — e até queda — em certas habilidades cognitivas.
O que diz a pesquisa

O neurocientista Jared Cooney Horvath, professor da Universidade de Melbourne, argumenta que a chamada Geração Z apresenta declínio em áreas como atenção sustentada, memória, leitura, matemática e resolução de problemas.
Em audiências públicas, ele chegou a afirmar que há uma desconexão entre autopercepção de competência digital e desempenho cognitivo básico.
É importante notar: isso não significa necessariamente que toda a geração seja “menos inteligente”, mas que certos indicadores acadêmicos têm piorado em comparação com décadas anteriores.
O possível “fim do efeito Flynn”
O aumento histórico de QI identificado por Flynn foi associado a fatores ambientais: melhor nutrição, maior escolarização, estímulos cognitivos mais variados.
Se houver reversão dessa tendência, especialistas apontam que as causas provavelmente também seriam ambientais — e não genéticas.
Entre os fatores citados estão mudanças nos hábitos de leitura, menor tempo dedicado à escrita manual, redução de atenção prolongada e maior fragmentação cognitiva associada ao uso constante de dispositivos digitais.
A tecnologia é a vilã?
O argumento central é que o uso excessivo de smartphones pode estar afetando processos cognitivos fundamentais.
Pesquisas mostram que adolescentes passam grande parte do tempo acordado em contato com telas. O multitasking digital constante pode prejudicar a atenção profunda e a consolidação da memória.
Estudos também indicam que a escrita manual ativa redes neurais ligadas à memória e à compreensão de linguagem de forma diferente da digitação. A substituição quase total do papel por dispositivos digitais pode alterar a forma como o cérebro processa informação.
Ainda assim, especialistas alertam para simplificações.
Tecnologia não é, por si só, causa automática de declínio cognitivo. O impacto depende de como é usada — consumo passivo e fragmentado tende a ter efeitos diferentes de uso criativo e estruturado.
Reação na educação

Países que lideraram a digitalização escolar começaram a rever estratégias.
Na Suécia, autoridades educacionais anunciaram recuo no uso excessivo de telas em fases iniciais do ensino, priorizando livros impressos.
Na Comunidad de Madrid, dispositivos foram retirados das etapas de Educação Infantil e Primária.
Relatórios também mostram que o acesso ao smartphone ocorre cada vez mais cedo — muitas vezes antes dos 11 anos.
A preocupação central não é apenas o aparelho, mas a exposição precoce e prolongada.
O debate ainda está aberto
Falar em “primeira geração menos inteligente” é uma afirmação forte — e controversa.
Testes de QI não capturam todas as formas de inteligência. A própria Geração Z demonstra alta fluência digital, rapidez na navegação informacional e adaptação tecnológica.
O que os dados sugerem é uma possível mudança no perfil cognitivo — não necessariamente um declínio absoluto.
Se há queda em atenção sustentada e leitura profunda, pode haver aumento em outras competências.
O ponto central
A discussão não é sobre demonizar a tecnologia.
É sobre equilíbrio.
O cérebro humano evoluiu para foco, repetição e processamento contínuo. O ambiente digital, por sua natureza, privilegia fragmentação e estímulos rápidos.
Quando o uso é excessivo — especialmente na infância — os impactos podem aparecer em habilidades tradicionais de aprendizagem.
A pergunta não é se a Geração Z é menos inteligente.
É se o ambiente em que cresce está favorecendo o desenvolvimento das capacidades que a escola ainda valoriza.
E essa é uma conversa que vai muito além do celular.
[ Fonte: Libertad Digital ]