A proposta do governo da Espanha de restringir o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais reacendeu um debate antigo, mas cada vez mais urgente: como garantir a segurança dos jovens em um ambiente digital que já faz parte da vida cotidiana. Para a Google, o caminho não passa por afastar os menores da internet, e sim por prepará-los para usá-la de forma segura, crítica e responsável.
Essa foi a posição defendida por Marta Becerra, gerente de Políticas Públicas e Relações Institucionais do Google Espanha, durante um evento realizado em Madri. Segundo ela, o foco deve estar em proteger crianças e adolescentes dentro do mundo digital, reconhecendo que as experiências online já são estruturais na formação das novas gerações.
Educação digital em vez de isolamento

Becerra argumentou que a proibição, por si só, não responde à complexidade do problema. “A experiência online é uma parte fundamental da vida dos jovens”, afirmou, destacando que o desenvolvimento de habilidades digitais será essencial em um futuro fortemente marcado pela inteligência artificial.
Nesse sentido, a executiva defendeu uma colaboração mais profunda entre empresas de tecnologia, instituições públicas e famílias. Segundo ela, o Google investe continuamente em mecanismos de segurança baseados no princípio do “design seguro”, com experiências adaptadas à idade e à fase de desenvolvimento de cada usuário.
Entre as medidas citadas estão proteções automáticas que bloqueiam conteúdos inadequados para menores, configurações de privacidade mais restritivas ativadas por padrão e a proibição de publicidade personalizada para usuários com menos de 18 anos.
Ferramentas de controle e supervisão familiar
A representante do Google também destacou o uso de ferramentas que permitem maior controle por parte das famílias. Entre elas estão o Family Link e as versões supervisionadas do YouTube e do YouTube Kids, que possibilitam definir limites de tempo, controlar conteúdos e acompanhar o uso das plataformas.
De acordo com Becerra, essas soluções oferecem flexibilidade para que cada família decida o grau de digitalização e supervisão mais adequado à sua realidade, sem recorrer a medidas extremas de exclusão total do ambiente online.
Governo reconhece limites da proibição
O debate acontece poucos dias após o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciar a intenção de elevar de 14 para 16 anos a idade mínima para a cessão de dados pessoais e restringir o acesso de menores às redes sociais.
Para Julio Albalad, diretor do Instituto Nacional de Tecnologias Educativas e de Formação de Professores (INTEF), a iniciativa é relevante, mas insuficiente. Ele alertou que jovens frequentemente contornam bloqueios técnicos com ferramentas como VPNs, o que torna a simples proibição pouco eficaz na prática.
“Regulamentar é importante, mas é preciso ir além”, afirmou. Para Albalad, ensinar o uso ético e responsável das tecnologias, bem como as consequências de práticas inadequadas, é tão essencial quanto impor limites legais.
Formação de professores e investimento público

O representante do INTEF destacou os avanços na formação digital no sistema educacional espanhol. Segundo ele, nos últimos quatro anos, mais de um milhão de professores foram capacitados em competências digitais, com investimentos próximos de um bilhão de euros destinados à digitalização das salas de aula.
A ideia, segundo Albalad, é criar uma base sólida de educação digital que permita aos estudantes compreender não apenas como usar a tecnologia, mas também como avaliar riscos, reconhecer abusos e agir de forma consciente no ambiente online.
Transparência, algoritmos e desinformação
Beatriz Martín, diretora da FAD Juventud, reforçou a necessidade de avançar na formação contínua e na criação de uma convivência digital mais ética e saudável. Ela defendeu sistemas mais robustos de verificação de idade e uma maior harmonização das regras em nível europeu.
Martín também chamou atenção para a importância de entender como funcionam os algoritmos das plataformas digitais. Segundo ela, exigir transparência, ética e responsabilidade das empresas é fundamental para combater a desinformação — um fenômeno que afeta não apenas adolescentes, mas também adultos, com impactos diretos na polarização social, nos discursos de ódio e até na segurança cidadã.
Para os participantes do encontro, o consenso é claro: proibir pode ser um primeiro passo, mas educar, dialogar e preparar a sociedade para o uso consciente da tecnologia é o verdadeiro desafio do mundo digital contemporâneo.
[ Fonte: Cadena Ser ]