Hoje, o Dia das Mães movimenta multidões, emociona famílias e aquece o comércio como poucas datas conseguem fazer. Mas o caminho até essa celebração se tornar tão importante no Brasil passou por decretos presidenciais, influência estrangeira, interesses políticos e até mudanças no papel da mulher na sociedade. O mais curioso é que a comemoração, como conhecemos atualmente, nasceu longe daqui — e sua origem carrega detalhes que muita gente desconhece.
O decreto que oficializou a data no Brasil

O Dia das Mães foi oficialmente instituído no Brasil em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. O decreto assinado pelo então presidente determinava que o segundo domingo de maio passaria a ser dedicado às mães, exaltando valores ligados ao amor materno, à solidariedade e à união familiar.
O texto do documento deixava claro o tom simbólico da homenagem. A maternidade era apresentada como uma força moral importante para a construção da sociedade, em um momento em que o governo buscava fortalecer determinados valores sociais e culturais.
Mas, apesar da oficialização, a comemoração ainda estava longe de ter o tamanho que possui atualmente. Na prática, o Dia das Mães demoraria décadas para se consolidar de verdade no imaginário popular brasileiro.
Pesquisadores apontam que o modelo brasileiro foi fortemente inspirado nos Estados Unidos. A ideia de dedicar um domingo inteiro às mães já fazia enorme sucesso entre os americanos no começo do século 20 e acabou influenciando diversos países ao redor do mundo.
Além disso, o período também coincidia com importantes mudanças sociais no Brasil. As mulheres começavam a conquistar mais espaço na vida pública, inclusive com avanços políticos importantes, como o direito ao voto. Valorizar simbolicamente a figura materna também servia como uma forma de aproximação com o público feminino.
A mulher que ajudou a criar o Dia das Mães moderno

Por trás da celebração moderna existe uma personagem pouco conhecida fora dos livros de história: Anna Maria Jarvis, uma norte-americana que transformou uma perda pessoal em um movimento nacional.
Depois da morte da mãe, em 1905, ela iniciou uma campanha para criar uma data dedicada à valorização das mães. Sua inspiração vinha justamente da trajetória da própria mãe, reconhecida na comunidade por trabalhos sociais e ações ligadas à igreja.
Mesmo sem internet, redes sociais ou campanhas digitais, a ideia ganhou força rapidamente. Igrejas, grupos comunitários e organizações locais começaram a aderir às homenagens, até que o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, oficializou o segundo domingo de maio como o Dia das Mães no país.
O impacto foi tão grande que a comemoração atravessou fronteiras em pouco tempo.
No Brasil, já existiam homenagens anteriores ligadas principalmente às igrejas cristãs. O mês de maio, tradicionalmente associado a Maria, mãe de Jesus, favorecia naturalmente esse tipo de celebração.
Há registros de comemorações ainda em 1918, no Rio Grande do Sul, promovidas pela Associação Cristã de Moços. Décadas depois, a Igreja Católica brasileira também incorporaria oficialmente a tradição.
Como a data virou um gigante do comércio
Embora o Dia das Mães já existisse oficialmente desde os anos 1930, foi durante o regime militar, entre 1964 e 1985, que a data ganhou enorme força cultural e comercial.
Naquele período, havia uma valorização intensa da família tradicional e da figura da mãe dedicada ao lar. Revistas, campanhas publicitárias e programas de televisão passaram a reforçar constantemente esse modelo.
Ao mesmo tempo, o varejo percebeu o potencial econômico da comemoração.
O resultado foi explosivo. O Dia das Mães rapidamente se tornou uma das datas mais importantes para o comércio brasileiro, perdendo apenas para o Natal em volume de vendas.
O apelo emocional sempre foi o grande motor dessa transformação. Diferente de outras datas comemorativas, o Dia das Mães mistura consumo com afetividade, memória familiar e tradição cultural.
Com o passar dos anos, os presentes também mudaram. Se antes predominavam itens para a casa — como eletrodomésticos e móveis —, hoje a data movimenta praticamente todos os segmentos: perfumes, roupas, joias, eletrônicos, cosméticos e experiências pessoais.
Mesmo com o crescimento da Black Friday nos últimos anos, o Dia das Mães continua sendo considerado a principal data comercial do primeiro semestre.
Por que o Dia das Mães muda em cada país
Apesar de muita gente imaginar que o Dia das Mães seja celebrado no mesmo dia no mundo inteiro, a realidade é bem diferente.
O segundo domingo de maio é adotado em vários países, como Japão, Austrália, Chile, Itália e Canadá. Mas diversas nações seguem calendários completamente distintos.
Em Portugal e Espanha, por exemplo, a comemoração acontece no primeiro domingo de maio. Já na Argentina, o Dia das Mães é celebrado em outubro.
Alguns lugares mantêm relações históricas e religiosas na escolha da data. Em países árabes, como Egito e Síria, a homenagem ocorre em 21 de março, coincidindo com a chegada da primavera no hemisfério norte.
Há também países que adotam dias fixos. Na Bolívia, a celebração acontece em 27 de maio. Em partes do leste europeu, como Bulgária e Romênia, o Dia das Mães coincide com o 8 de março, mesma data do Dia Internacional da Mulher.
Muito antes das campanhas publicitárias e das vitrines cheias de promoções, a maternidade já era celebrada em civilizações antigas. Na Grécia Antiga, por exemplo, festividades da primavera homenageavam Reia, considerada a mãe dos deuses.
Séculos depois, a essência emocional permaneceu praticamente intacta — mas ganhou uma dimensão cultural e comercial que transformou a data em um dos eventos mais fortes do calendário moderno.
[Fonte: G1]