A Lua talvez esteja prestes a revelar um de seus segredos mais antigos diretamente aos próximos astronautas que pisarem em sua superfície. Novas simulações indicam que o maior impacto já registrado no satélite espalhou fragmentos vindos das profundezas lunares por centenas de quilômetros — justamente em direção à região escolhida para futuras missões humanas. Se a descoberta estiver correta, a missão Artemis poderá encontrar algo muito mais raro do que gelo ou poeira espacial: pedaços do interior primordial da própria Lua.
O maior cratera da Lua pode esconder pistas do início do Sistema Solar

O foco da descoberta é a gigantesca South Pole–Aitken Basin, considerada a maior estrutura de impacto da Lua.
A cratera ocupa uma área colossal na face oculta do satélite e se estende do polo sul lunar até a região de Aitken, formando uma cicatriz com mais de 2.000 quilômetros de extensão.
Durante décadas, cientistas tentaram entender exatamente como essa estrutura se formou.
Agora, um novo estudo publicado na revista Science Advances sugere uma resposta muito mais dramática do que se imaginava.
Segundo os pesquisadores, o impacto teria sido provocado por um objeto gigantesco com cerca de 260 quilômetros de diâmetro.
Ele teria atingido a Lua vindo do norte em direção ao sul, viajando a aproximadamente 13 quilômetros por segundo.
O choque foi tão violento que arrancou material das camadas profundas do satélite, incluindo fragmentos do manto lunar.
E esses fragmentos podem ter sido lançados muito além da borda da cratera.
O material foi espalhado em um padrão estranho chamado “borboleta”
As novas simulações mostram que os detritos do impacto não foram distribuídos uniformemente.
Em vez disso, eles se espalharam em um padrão descrito pelos cientistas como semelhante ao formato de uma borboleta.
Parte do material teria viajado até 550 quilômetros na direção principal do impacto.
Outros fragmentos alcançaram até 650 quilômetros lateralmente.
Esse detalhe mudou completamente o interesse científico sobre determinadas áreas próximas ao polo sul lunar.
Isso porque justamente nessa região está localizada parte dos locais analisados para futuras missões do programa Artemis, liderado pela NASA.
Se as simulações estiverem corretas, astronautas poderão pousar sobre depósitos contendo material arrancado diretamente do interior profundo da Lua há bilhões de anos.
E isso seria algo extremamente raro.
O manto lunar continua sendo um dos maiores mistérios da ciência
Grande parte do conhecimento atual sobre a Lua vem das missões Apollo realizadas no século passado.
Mas as amostras coletadas pelos astronautas revelaram principalmente informações sobre a crosta lunar e os antigos mares basálticos.
O manto lunar — camada localizada abaixo da crosta — continua sendo uma das regiões menos compreendidas do satélite.
Por isso, encontrar fragmentos desse material seria considerado um avanço gigantesco para a ciência planetária.
Os pesquisadores acreditam que essas rochas poderiam ajudar a responder perguntas fundamentais sobre a formação da Lua, a idade real da bacia Aitken-Polo Sul e a violência dos primeiros bilhões de anos do Sistema Solar.
Alguns estudos já estimam que a cratera tenha se formado entre 4,25 e 4,33 bilhões de anos atrás.
Ou seja: estamos falando de uma estrutura criada quando o Sistema Solar ainda era extremamente jovem.
Na prática, essas rochas funcionariam como cápsulas do tempo geológicas preservadas desde os primórdios planetários.
A missão Artemis pode encontrar algo muito mais valioso do que gelo
Até agora, boa parte do interesse no polo sul lunar estava ligada à presença potencial de gelo de água em crateras permanentemente sombreadas.
Esse recurso é considerado estratégico para futuras bases humanas porque poderia ser usado para produzir água potável, oxigênio e combustível espacial.
Mas a nova descoberta adiciona outro elemento extremamente valioso à região.
Se os astronautas da missão Artemis III realmente pousarem sobre depósitos ricos em material do manto lunar, a missão pode se transformar em uma das explorações científicas mais importantes desde as Apollo.
Os próprios pesquisadores, porém, fazem um alerta importante.
As simulações usadas no estudo são extremamente sofisticadas, mas ainda possuem limitações.
Somente a coleta real de amostras poderá confirmar se os depósitos previstos realmente existem na superfície lunar.
Mesmo assim, a possibilidade já empolga cientistas.
Porque talvez, escondidos sob alguns centímetros de poeira cinzenta, estejam fragmentos preservados do impacto colossal que abriu a maior ferida já vista na Lua — uma cicatriz gigantesca formada quando o Sistema Solar ainda estava aprendendo a existir.
[Fonte: Muy interesante]