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Tecnologia

Governo britânico testa tecnologia para prever assassinatos antes que aconteçam

Um novo sistema de análise de dados está sendo desenvolvido no Reino Unido com o objetivo de identificar, antes que aconteça, quem tem maior probabilidade de cometer crimes violentos. A proposta gera debates acalorados sobre ética, privacidade e o risco de reforçar preconceitos estruturais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Reino Unido está investindo em uma iniciativa tecnológica que promete ser tão ambiciosa quanto controversa. Trata-se de um sistema de “previsão de homicídios”, baseado em algoritmos capazes de analisar grandes volumes de dados sobre indivíduos já conhecidos pelas autoridades. A ideia é identificar possíveis autores de crimes violentos antes que os delitos ocorram — o que reacende debates sobre discriminação, justiça e vigilância estatal.

Inteligência artificial a serviço da segurança pública

Um novo sistema de análise de dados está sendo desenvolvido no Reino Unido com o objetivo de identificar, antes que aconteça, quem tem maior probabilidade de cometer crimes violentos
© Unsplash

De acordo com o jornal The Guardian, o projeto está sendo desenvolvido pelo Ministério da Justiça britânico e utiliza algoritmos sofisticados para processar dados de pessoas com antecedentes criminais. A intenção é melhorar a avaliação de risco em casos de violência grave e, consequentemente, fortalecer a segurança pública por meio de ações preventivas.

A tecnologia analisa dados pessoais como nome, data de nascimento, gênero, etnia e números de identificação da base de dados nacional da polícia. “O algoritmo revisará características dos ofensores que aumentam o risco de homicídio e explorará técnicas alternativas e inovadoras de ciência de dados para essa avaliação”, informou o ministério.

Uma abordagem preditiva com foco em reincidência

Segundo as autoridades, o sistema está focado apenas em pessoas que já passaram pelo sistema judicial — seja por condenações anteriores, liberdade condicional ou outros regimes de supervisão. Os dados utilizados provêm exclusivamente de fontes oficiais, como registros da polícia e do serviço prisional.

O projeto ainda está em fase de pesquisa. O governo esclarece que o objetivo é verificar se o uso desses novos dados, aliados às ferramentas de avaliação de risco já existentes, pode tornar mais precisa a previsão de comportamentos violentos. A promessa é de um relatório público com os resultados ao final da etapa de testes.

Críticas e temores sobre viés e discriminação

Um novo sistema de análise de dados está sendo desenvolvido no Reino Unido com o objetivo de identificar, antes que aconteça, quem tem maior probabilidade de cometer crimes violentos
© Unsplash

Apesar das garantias dadas pelo Ministério da Justiça, diversas organizações da sociedade civil têm manifestado preocupação com o potencial discriminatório da iniciativa. A ONG Statewatch, por exemplo, alertou que o sistema poderia incluir dados de pessoas que nunca foram condenadas, como vítimas de violência doméstica, ampliando o alcance da vigilância sem justificativa legal.

Sofia Lyall, pesquisadora da organização, afirmou que esse tipo de tecnologia “pode amplificar a discriminação existente no sistema judicial”. Isso porque os algoritmos são alimentados por dados históricos, muitas vezes contaminados por preconceitos raciais, sociais e institucionais. “Esse modelo, baseado em informações de uma polícia e de um ministério historicamente racistas, reforça e perpetua desigualdades estruturais”, declarou Lyall ao The Guardian.

Ela também destacou o risco de criminalização excessiva de pessoas negras, de origem étnica diversa ou de baixa renda — grupos que já enfrentam taxas desproporcionais de encarceramento e abordagem policial no Reino Unido.

Um debate que vai além da tecnologia

Diante das críticas, o Ministério da Justiça reforçou que o projeto é apenas experimental e que nenhuma medida será tomada sem a devida análise. Ainda assim, o avanço dessa tecnologia levanta questões importantes sobre privacidade, direitos civis e o papel do Estado na antecipação de crimes.

As autoridades afirmam que o sistema de justiça britânico já utiliza ferramentas de avaliação de risco, e que o novo projeto pretende apenas complementar esses métodos com dados adicionais, como registros de custódia e ocorrências policiais.

A proposta britânica de prever crimes antes que aconteçam traz à tona uma discussão global: até que ponto a tecnologia pode — ou deve — antecipar comportamentos humanos? E quem será mais vigiado, ou mais penalizado, nesse processo? O futuro da segurança pública talvez passe por respostas difíceis a essas perguntas.

 

Fonte: Infobae

 

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