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Tecnologia

IA do Google derruba audiência de sites em mais de 20%, aponta estudo

Se a busca do Google já era dominante, a chegada das respostas geradas por inteligência artificial mudou ainda mais o jogo — e, segundo um novo estudo, mudou para pior para quem depende de tráfego orgânico. Um levantamento da Authoritas mostra que o recurso AI Overviews, que entrega respostas prontas sem exigir clique, já provoca uma queda média de 20,6% na audiência de sites jornalísticos. E o impacto pode ser ainda maior.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Como o “zero clique” está mudando o funcionamento da web

A lógica é simples: na busca tradicional, o usuário recebe uma lista de links, escolhe um deles e entra no site. Isso gera tráfego, publicidade e novos assinantes. Mas com o AI Overviews, o Google mostra logo no topo um texto resumido, produzido pela própria IA, empurrando os links para baixo — ou para a lateral.

Muita gente simplesmente lê o resumo e não clica em nada. Esse comportamento, conhecido como zero clique, está se tornando dominante. De acordo com o estudo enviado ao Cade, quando a resposta por IA aparece, a taxa de clique no primeiro resultado cai de 21,4% para apenas 8,93%. Na prática, é 58,3% de perda imediata de visitantes naquele link específico.

A pesquisa analisou cerca de 5 mil palavras-chave típicas de buscas sobre notícias e atualidades no Google.com.br. A conclusão: o tráfego dos veículos sofre uma queda média de 20,6% — mesmo usando estimativas consideradas “conservadoras”.

Conteúdo jornalístico usado sem permissão, dizem organizações

O relatório enviado ao Cade pelas organizações Foxglove, Artigo 19, Idec e FGV Direito Rio afirma que o Google treinou seus modelos de IA com dados extraídos de veículos jornalísticos sem autorização e sem qualquer forma de remuneração. Os resumos exibidos no AI Overviews também seriam produzidos a partir dessa raspagem de conteúdo.

O Google nega as acusações e diz, em texto publicado no blog oficial, que o volume total de cliques orgânicos se manteve “relativamente estável” em relação ao ano anterior — e que os “cliques de qualidade” aumentaram.

Mas as organizações contestam. Para Stella Caram, diretora jurídica da Foxglove, a situação tende a piorar. “À medida que o Google expande o AI Overviews, mais páginas serão dominadas pelos resumos de IA, empurrando ainda mais para baixo os links de veículos de notícias”, afirmou.

Recusar o uso dos dados? Pode custar caro — muito caro

O Google oferece aos sites uma opção para impedir que seus conteúdos sejam usados no treinamento dos modelos de IA. Mas há um problema gigantesco: quem faz isso também corre o risco de ser removido dos resultados tradicionais da busca.

Com o Google controlando cerca de 90% do mercado de busca, isso equivale, nas palavras do próprio estudo, a uma “pena de morte digital” para qualquer veículo jornalístico.

O levantamento também acusa o Google de autofavorecimento. Entre os links que mais aparecem nas respostas por IA, muitos pertencem ao YouTube — empresa que também é parte da Alphabet, o mesmo conglomerado que controla o Google. A prática viola princípios de concorrência e já motivou investigações em outros países.

Cade investiga desde 2018 — agora com novo foco

O inquérito do Cade sobre a plataforma existe desde 2018. A investigação começou por suspeitas de “scraping”, a prática de exibir trechos de matérias jornalísticas no buscador sem gerar tráfego para os veículos que produziram o conteúdo.

Na época, ainda não havia IA integrada ao mecanismo. Agora, o caso ganha uma nova dimensão: o impacto financeiro direto da queda de tráfego provocada pelos resumos do AI Overviews.

Segundo o estudo, 35,3% das buscas por notícias no Brasil já exibem respostas por IA. E como o Google não fornece dados detalhados sobre cliques e perdas, os veículos dependem de estimativas — o que dificulta saber a real extensão do dano.

Um risco direto para jornalistas e para o debate público

O documento submetido ao Cade alerta para o efeito dominó: menos tráfego significa menos assinantes, menos publicidade, menos receita — e, inevitavelmente, redações menores.

“Uma redução média de 20,6% no tráfego tem impacto financeiro severo. Isso significa menos jornalistas investigando o mundo, menos diversidade de informações e um debate público ainda mais enfraquecido”, afirma o estudo.

É um alerta grave para o futuro da imprensa — e para o futuro da própria web. Se o modelo de buscas por IA se tornar dominante, o que acontece quando quase ninguém mais clica nos links que sustentam o jornalismo profissional? É essa pergunta que reguladores no Brasil e no mundo terão de responder rapidamente.

[Fonte: Diário do Comércio]

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