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IA está inventando destinos turísticos — e já há viajantes perdidos tentando encontrá-los

Turistas enganados por lugares inexistentes, trilhas que levam a becos sem saída e dicas falsas que colocam vidas em risco. A febre de usar inteligência artificial para planejar viagens cresce, mas também expõe uma nova ameaça: roteiros de fantasia criados por chatbots que parecem reais demais para ser verdade.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A inteligência artificial está revolucionando o turismo, tornando mais fácil sonhar e planejar aventuras pelo mundo. Mas, ao mesmo tempo, está criando uma nova categoria de risco: o das viagens imaginárias. Plataformas baseadas em IA estão “inventando” destinos, horários e rotas, confundindo até viajantes experientes. E, enquanto o entusiasmo cresce, especialistas alertam — confiar cegamente em um chatbot pode ser mais perigoso do que parece.

Turistas enganados por destinos que não existem

Nos Andes peruanos, dois turistas mostraram animados ao guia Miguel Ángel Góngora Meza um roteiro detalhado para conhecer o “Cañón Sagrado de Humantay”. O nome soava místico e o texto, convincente — mas o destino simplesmente não existe.

Segundo contou Góngora à BBC, o local é uma invenção da IA, uma mistura de nomes e descrições de lugares reais que resultou em uma fantasia digital. “Eles me mostraram a captura de tela, com descrições vívidas e seguras, mas não há nada assim nos Andes”, disse o guia.

Os viajantes pagaram 160 dólares e acabaram abandonados em uma estrada rural sem destino. “Esse tipo de erro é perigoso em regiões como o Peru. Você pode acabar a 4.000 metros de altitude, sem oxigênio e sem sinal de telefone”, alertou Góngora.

A febre da IA entre jovens viajantes

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© Unsplash

Planejar viagens com inteligência artificial virou moda, especialmente entre os mais jovens. Segundo pesquisa da Global Rescue (2025), 24% dos turistas já recorrem a IA para montar roteiros — um salto em relação aos 11% registrados no final de 2024. Entre menores de 35 anos, a adesão chega a 40%.

Mas o entusiasmo pode sair caro. A viajante Dana Yao contou à BBC que confiou em ChatGPT para saber o horário do último teleférico no Monte Misen, no Japão — e acabou presa no topo da montanha.

Outros usuários relataram sugestões absurdas: uma “Torre Eiffel em Pequim”, passeios “rápidos” que exigem horas de caminhada e até alertas sobre ataques de tubarão em praias sem mar.

Nos Estados Unidos, a executiva Judy Gauthier, da empresa Go City, seguiu um roteiro criado por IA que a levou a uma trilha nas Montanhas Great Smoky — fechada há mais de um ano. “A IA confundiu o aquário de San Sebastián com a praia local”, contou.

Por que a IA erra tanto nos roteiros?

A resposta está no funcionamento básico dos modelos de linguagem. “Eles não entendem o que é uma instrução prática ou um conselho real — apenas produzem palavras que soam plausíveis”, explicou à BBC o professor Rayid Ghani, da Carnegie Mellon University.

A pesquisadora Niusha Shafiabady, citada pela ZME Science, lembra que informações como voos, preços e clima mudam constantemente. “Os modelos não conseguem acompanhar a atualização em tempo real.” Estudos indicam que sistemas como o modelo OpenAI o1 acertam apenas 10% das planificações complexas.

Jay Stevens, CEO da Wayfairer Travel, testou o recurso no Japão. A IA o mandou para fontes termais com horários errados de ônibus. “Eram 11h11 da noite, nevando, e estávamos cobertos de gelo. Quando você sai do big data e entra no small data, o sistema simplesmente acredita nas próprias invenções”, relatou à Travel Weekly.

Golpes e desinformação: a nova fronteira do risco digital

A Global Rescue também alerta para um perigo crescente: o uso de bots e vídeos falsos gerados por IA para imitar plataformas de turismo legítimas. O objetivo? Roubar dados pessoais e pagamentos de turistas distraídos. “A proliferação da IA é uma ameaça iminente ao setor de viagens”, afirmou Harding Bush, diretor de segurança da organização.

Como evitar cair na armadilha digital

Especialistas recomendam usar a IA apenas como ponto de partida — nunca como fonte definitiva. Antes de embarcar, verifique horários em sites oficiais, confirme trajetos no Google Maps e busque opiniões de moradores ou viajantes reais.

“A IA é ótima para se inspirar, mas perigosa para planejar”, advertiu o consultor de viagens Nolan Burris ao Huffington Post.

 

[ Fonte: DW ]

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