Com o avanço da inflação e o impacto de eventos climáticos extremos, o café moído — item essencial na mesa do brasileiro — passou por um aumento de preço sem precedentes. O IBGE divulgou que, nos últimos 12 meses, a alta acumulada chega a 80,2%, a maior desde a criação do Plano Real. Entenda os motivos por trás dessa escalada e o que isso significa para o mercado e o consumidor.
A maior inflação em 30 anos
De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o café moído acumula uma inflação de 80,2% em 12 meses, superando todas as altas anteriores desde maio de 1995. Naquela ocasião, a inflação foi de 85,5%, ainda sob os efeitos da transição para a nova moeda, o real.
Apenas em abril de 2025, o aumento foi de 4,48%. Embora represente uma desaceleração em comparação aos meses anteriores — como os 8,14% registrados em março e os impressionantes 10,77% em fevereiro — o preço segue em curva ascendente.
O que está por trás da alta do café?

O aumento do preço não é isolado. Uma combinação de fatores internos e externos contribuiu para esse cenário, segundo especialistas ouvidos pelo g1 e dados da indústria. Abaixo, os principais motivos:
Clima extremo e seca prolongada:
Nos últimos quatro anos, ondas de calor, seca e geadas afetaram diretamente a produção de café no Brasil. Em 2024, o calor intenso fez com que as plantas abortassem os frutos como mecanismo de sobrevivência, reduzindo drasticamente a colheita.
Oferta global em queda:
Outros grandes produtores, como o Vietnã, também enfrentaram dificuldades climáticas, o que gerou uma quebra de safra e menor oferta mundial.
Logística mais cara:
A guerra no Oriente Médio encareceu o transporte marítimo internacional, aumentando o custo dos contêineres e impactando o valor do café exportado — o que, por consequência, pressiona o preço no mercado interno.
Alta do dólar:
Como o café é uma commodity global, cotada em dólar, qualquer valorização da moeda norte-americana encarece o produto para os consumidores brasileiros.
Aumento da demanda internacional:
A bebida, segunda mais consumida do mundo, perdeu espaço no Brasil para atender a novos mercados. Desde 2023, a China saltou da 20ª para a 6ª posição entre os maiores importadores de café brasileiro.
O impacto para o consumidor
O IPCA subiu 0,43% em abril, puxado principalmente pela alta nos preços de alimentos e serviços. Flávia Oliveira traz lista dos itens que mais pressionaram a inflação: batata inglesa, café moído, tomate e lanches fora de casa. Além disso, medicamentos e planos de saúde também… pic.twitter.com/6BlJUUo9Hl
— GloboNews (@GloboNews) May 9, 2025
O consumidor brasileiro vem sentindo no bolso. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a matéria-prima teve aumento de 224% nos últimos quatro anos, e o repasse ao consumidor já chega a 110%. Ainda assim, a entidade alerta que parte desses custos ainda está sendo absorvida pela indústria, o que pode levar a novas altas nos próximos meses.
Além disso, denúncias de “café fake” — produto feito com resíduos da lavoura e sem grão de café verdadeiro — têm gerado preocupação e reforçado a necessidade de fiscalização rigorosa sobre a qualidade do que chega às prateleiras.
E agora?
Para especialistas, o mercado segue volátil e sensível a eventos climáticos e geopolíticos. O preço do café deve continuar instável, ao menos até que haja uma recuperação significativa na oferta e uma redução das pressões internacionais.
O café vive um de seus momentos mais caros da história recente. Com inflação de mais de 80% em um ano, o produto se torna símbolo da crise climática, da volatilidade global e do impacto direto no bolso do consumidor. E os próximos meses ainda prometem novos desafios para o setor.
Fonte: G1.Globo