A inteligência artificial se tornou uma das tecnologias mais estratégicas do mundo — comparável à energia, segundo especialistas. Nesse cenário, cresce a preocupação com a dependência de modelos desenvolvidos por grandes empresas estrangeiras. É nesse contexto que surge o LatamGPT, uma iniciativa regional que busca construir um modelo de linguagem com dados latino-americanos, mais transparente e alinhado à realidade local.
O que é o LatamGPT e por que ele surgiu

O LatamGPT é um projeto colaborativo que reúne universidades, ONGs, centros de pesquisa e outras instituições da América Latina. Entre os participantes estão a Universidad Nacional de Córdoba e a Fundación Vía Libre, além do CENIA, que ajudou a impulsionar a iniciativa.
O objetivo é desenvolver um modelo de linguagem com cerca de 70 bilhões de parâmetros, treinado com dados coletados na própria região. A proposta vai além da tecnologia: busca reduzir a dependência de sistemas fechados como ChatGPT ou Gemini, cujos dados de treinamento e funcionamento não são totalmente transparentes.
Segundo a pesquisadora Luciana Benotti, doutora em informática e especialista em linguística computacional, a IA precisa ser tratada como uma prioridade estratégica. “Assim como a energia, ela define o futuro econômico e tecnológico dos países”, afirma.
O problema dos modelos atuais
Hoje, os principais modelos de linguagem são desenvolvidos por grandes empresas como Google, Microsoft, Meta e Nvidia.
Esses sistemas apresentam três desafios centrais:
- Falta de transparência sobre os dados utilizados
- Alto consumo de energia, água e infraestrutura
- Presença de vieses culturais, muitas vezes centrados no hemisfério norte
Segundo Benotti, isso impacta diretamente a forma como essas IAs interpretam o mundo — e pode gerar distorções quando aplicadas a contextos latino-americanos.
IA com identidade latino-americana
Um dos pilares do LatamGPT é justamente incorporar a diversidade cultural, linguística e social da região. Isso inclui:
- Diferentes variantes do espanhol e do português
- Referências locais, históricas e sociais
- Contextos culturais que não aparecem em modelos globais
Um exemplo prático veio de um estudo realizado com mais de 180 escolas na província de Córdoba, na Argentina. Os resultados mostraram que modelos atuais têm mais dificuldade em identificar e corrigir estereótipos locais do que aqueles relacionados aos Estados Unidos ou à Europa.
Isso reforça a necessidade de modelos que compreendam melhor a realidade regional.
O custo invisível da inteligência artificial

Embora muitos usuários percebam a IA como algo “gratuito”, seu funcionamento envolve custos significativos:
- Alto consumo de energia
- Uso intensivo de água para resfriamento de servidores
- Infraestrutura computacional avançada
Grande parte desses custos ainda é subsidiada pelas grandes empresas, que veem valor na coleta de dados dos usuários.
Além disso, há uma preocupação crescente com centros de dados instalados em países do sul global. Segundo Benotti, esses centros não representam soberania tecnológica, já que continuam sob controle de empresas estrangeiras.
Os desafios de construir uma IA própria
Apesar do potencial, o LatamGPT enfrenta limitações importantes:
- Orçamento muito menor que o das big techs
- Dificuldade de treinar modelos do zero
- Necessidade de equilibrar abertura de dados e proteção contra uso indevido
Atualmente, o modelo está em fase de avaliação e documentação. Ainda não há uma versão final disponível ao público.
Mesmo assim, o projeto já representa um avanço importante na construção de conhecimento técnico na região.
Mais do que tecnologia, uma estratégia de futuro
O LatamGPT não busca apenas competir com gigantes globais. Seu objetivo principal é outro: desenvolver capacidade local, formar profissionais e permitir que a região tome decisões próprias sobre o uso da inteligência artificial.
Para isso, segundo os pesquisadores, o foco deve estar em:
- Investimento em talento local
- Infraestrutura própria, ainda que menor e mais eficiente
- Transparência no desenvolvimento dos modelos
A proposta é clara: em vez de apenas consumir tecnologia, a América Latina quer participar ativamente da sua construção.
E isso pode fazer toda a diferença nos próximos anos.
[ Fonte: Perfil ]