O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (20), durante um evento no Rio Grande do Sul, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “quer governar o mundo pelo Twitter”. A declaração foi feita enquanto Lula criticava o uso excessivo de celulares e as transformações provocadas pelas redes sociais na política contemporânea.
A fala ocorreu na cidade de Rio Grande, durante uma agenda oficial, e foi recebida com aplausos pelo público presente. O comentário sobre Trump se insere em um discurso recorrente do presidente brasileiro, que costuma associar o uso intenso de plataformas digitais à perda de diálogo direto e de empatia na vida pública.
Crítica ao uso de celulares e à política digital

Ao mencionar Trump, Lula explicou que restringe o uso de celulares em seu próprio gabinete. Segundo ele, a medida tem como objetivo garantir atenção plena às pessoas e às discussões presenciais.
“No meu gabinete é proibido entrar com celular. Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter? É fantástico. Todo dia ele fala alguma coisa e o mundo também fala outra coisa”, afirmou. Em seguida, o presidente questionou se é possível governar “com respeito” sem olhar nos olhos das pessoas.
O tema da dependência tecnológica tem sido constante nos discursos de Lula desde o início de seu atual mandato. O presidente costuma criticar o que chama de “desumanização” das relações sociais e políticas, atribuindo parte desse fenômeno ao uso intensivo de celulares e redes sociais.
Contexto político e relação com os Estados Unidos
A crítica a Trump acontece em um momento delicado da relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Na semana passada, o presidente norte-americano convidou Lula para participar de um chamado “Conselho de Paz”, que teria como objetivo supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza após o conflito no Oriente Médio.
Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, o convite foi enviado diretamente ao presidente brasileiro por meio da embaixada do Brasil em Washington, na sexta-feira (16), e posteriormente encaminhado ao Itamaraty para análise formal.
A expectativa no Palácio do Planalto é que Lula responda ao convite ainda nesta semana, embora as primeiras avaliações internas sejam marcadamente críticas à proposta apresentada pelo governo norte-americano.
Resistência no Planalto ao conselho proposto por Trump
De acordo com fontes ouvidas pela CNN Brasil, auxiliares próximos a Lula avaliam que o formato do conselho concentra poder excessivo nas mãos de Trump. A proposta permitiria que o presidente dos Estados Unidos definisse a pauta dos debates e escolhesse quais países fariam parte do colegiado, o que levanta preocupações sobre desequilíbrio político e diplomático.
A avaliação preliminar é que a iniciativa pode funcionar mais como um instrumento de projeção de poder dos EUA do que como um fórum multilateral genuíno. Por isso, a orientação no Planalto é agir com cautela, evitando decisões precipitadas que possam gerar desgaste internacional ou interno.
Antes de responder oficialmente, o governo brasileiro pretende realizar consultas internas e dialogar com outros países, especialmente parceiros tradicionais do Brasil em fóruns multilaterais, para avaliar os impactos de uma eventual participação.
Redes sociais, liderança e imagem internacional
A declaração de Lula sobre Trump também reflete visões distintas sobre liderança política no cenário global. Enquanto Trump é conhecido pelo uso intenso do Twitter — agora X — como ferramenta de comunicação direta e confronto político, Lula costuma defender a diplomacia tradicional, o diálogo institucional e a atuação em organismos internacionais.
Para aliados do presidente brasileiro, a crítica não foi apenas pessoal, mas simbólica: uma forma de marcar distância entre dois estilos de governar. De um lado, a política mediada por redes sociais, com declarações instantâneas e muitas vezes controversas; do outro, a aposta em processos diplomáticos, negociações presenciais e construção coletiva de consensos.
Mesmo com o tom crítico, o governo brasileiro evita tratar o episódio como um conflito direto. A estratégia, ao menos por enquanto, é manter uma postura pragmática diante dos Estados Unidos, sem abrir mão de autonomia política e diplomática.
A resposta de Lula ao convite de Trump deve sinalizar não apenas a posição do Brasil sobre o conflito em Gaza, mas também como o país pretende se posicionar em um cenário internacional cada vez mais marcado pela disputa de narrativas — muitas delas travadas, como destacou o próprio presidente, nas redes sociais.
[ Fonte: CNN Brasil ]