O governo brasileiro sempre defendeu relações próximas com Cuba e Venezuela, em nome da solidariedade latino-americana e de uma visão multipolar do mundo. Mas os últimos meses mostram que essa política tem custos elevados. Sanções dos Estados Unidos, atritos comerciais com Caracas e dívidas bilionárias não pagas revelam que Brasília precisa lidar com os efeitos colaterais de suas alianças estratégicas.
O caso Mais Médicos e as sanções de Trump

A decisão de Donald Trump de revogar os vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de outros ex-funcionários ligados ao programa Mais Médicos gerou forte reação em Brasília. Para Washington, o esquema — no qual Cuba ficava com até 80% do salário dos profissionais enviados ao Brasil — configurava “exportação de trabalho forçado”.
Entre 2013 e 2018, mais de 18 mil médicos cubanos trabalharam em áreas remotas do país. Muitos processaram Cuba e a Organização Pan-Americana de Saúde, alegando violação de direitos humanos. A ONU, a Human Rights Watch e o Parlamento Europeu classificaram o modelo como exploração.
Padilha reagiu chamando a medida de “ato covarde” e lembrou que, desde 2018, não há mais cubanos no programa. Ainda assim, a ofensiva de Trump expôs feridas antigas e reabriu o debate sobre a relação de Brasília com Havana.
Médicos em limbo jurídico
Após a retirada de Cuba, cerca de 8.500 médicos deixaram o Brasil. Outros permaneceram, mas enfrentam incertezas legais e dificuldades para validar seus diplomas. É o caso de Yaser Herrera, que só consegue trabalhar por decisão judicial. “Vim para ajudar, mas ainda preciso provar que mereço ficar”, declarou.
Organizações como a Prisoners Defenders defendem que o Brasil não reparou os danos aos profissionais e cobram responsabilização internacional.
Lula, Cuba e negócios bilaterais
O presidente Lula defende a parceria com Havana e critica as sanções. “Nossa relação com Cuba é de respeito. Os EUA precisam aceitar que perderam”, disse.
Enquanto isso, Havana tenta gerar divisas com novos acordos. Recentemente, foi criada a Bioamazonas Alimentos e Outros Bens de Consumo S.A., empresa mista entre cubanos e brasileiros para comercialização de alimentos e bens de consumo. A movimentação ocorre em meio a denúncias de que o conglomerado militar cubano Gaesa acumula bilhões de dólares enquanto a população enfrenta fome e apagões.
Pressão venezuelana e riscos na fronteira
Se Cuba traz desgastes diplomáticos, a Venezuela representa também um desafio de segurança. O ditador Nicolás Maduro voltou a reivindicar o território de Essequibo, em disputa com a Guiana. Relatórios militares apontam movimentações suspeitas perto da fronteira com Roraima, incluindo pistas de pouso improvisadas e acampamentos militares.
O Brasil respondeu com a Operação Atlas, mobilizando mais de 8.600 militares em exercícios na Amazônia, o que aumentou a tensão com Caracas. Pouco depois, a Venezuela impôs tarifas emergenciais sobre produtos de Roraima, atingindo em cheio as exportações brasileiras. As taxas foram revertidas dias depois, mas deixaram um alerta claro.
Dívidas que recaem sobre o Brasil

Outro ponto sensível é a dívida acumulada. Dados oficiais revelam que Cuba e Venezuela devem quase R$ 10 bilhões ao Brasil, referentes a financiamentos de grandes obras tocadas por empresas brasileiras. Embora os calotes não apareçam de imediato no balanço do BNDES, quem cobre os riscos é o Fundo de Garantia à Exportação, alimentado pelos contribuintes.
Na prática, a conta da inadimplência de Havana e Caracas é paga pelo bolso do cidadão brasileiro, enquanto os governos aliados seguem sem honrar compromissos.
Entre ideologia e pragmatismo
Ao manter relações próximas com regimes questionados, Brasília busca reforçar uma política externa independente. Mas os episódios recentes mostram que a aproximação com Cuba e Venezuela cobra custos concretos — econômicos, diplomáticos e até militares.
Em um cenário de tensões regionais e pressão internacional, o desafio do governo Lula será equilibrar solidariedade ideológica com os interesses práticos do Brasil.
[ Fonte: Infobae ]