O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, utilizou novamente a simbologia cultural como ferramenta política ao interpretar Imagine, clássico pacifista de John Lennon e Yoko Ono. O momento ocorreu durante um comício em Miranda, em meio a críticas à ampliação das operações militares dos Estados Unidos no Caribe. O gesto, carregado de simbolismo, tenta reforçar o discurso chavista de resistência e defesa da paz diante do que Caracas interpreta como ameaças externas.
O gesto musical em meio ao discurso político
Diante de uma multidão reunida para a posse de comitês de base bolivarianos, Maduro interrompeu seu discurso para invocar a mensagem pacifista de John Lennon. “Paz, paz, paz. Façam tudo pela paz”, afirmou, antes de perguntar ao ministro da Comunicação, Alfred Nazareth: “Como era a música do John Lennon? Imaginem todas as pessoas…”.
Enquanto Imagine ecoava pelos alto-falantes, Maduro entoava trechos da canção e aplaudia, acompanhado por apoiadores e autoridades que, no palco, faziam o gesto do “V” de paz. A cena rapidamente se espalhou pelas redes e pela imprensa venezuelana, reforçando a estratégia do governo de usar referências culturais globais para moldar sua narrativa política.
Hoje Nicolás Maduro cantou “Imagine” do John Lennon para pedir paz pic.twitter.com/abzOT6wJtX
— Sam Pancher (@SamPancher) November 16, 2025
A força simbólica de Imagine
Lançada em 1971, Imagine tornou-se uma das canções mais conhecidas de John Lennon e Yoko Ono, celebrada ao redor do mundo por sua mensagem utópica de união, fraternidade e superação de fronteiras políticas e ideológicas. O hino pacifista já ganhou inúmeras reinterpretações ao longo das décadas e costuma ser recuperado em momentos de conflito, tensão diplomática ou apelos por coexistência.
Trechos como “Imagine que não existem países” e “Sem necessidade de ganância ou fome” expressam uma visão de mundo sem divisões e sem violência — ideais que Maduro buscou associar ao discurso de defesa da soberania venezuelana. Em outro trecho citado por ele, Lennon canta: “Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro”, imagem frequentemente evocada em discursos públicos sobre coexistência pacífica.
Crescentes tensões com os Estados Unidos
O apelo de Maduro ocorre em um momento sensível da relação entre Caracas e Washington. Nas últimas semanas, o governo venezuelano tem denunciado o aumento da presença militar norte-americana no Caribe, interpretando as manobras como uma provocação direta.
A tensão se intensificou quando Trinidad e Tobago, país vizinho, anunciou exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos. As operações, que começam no domingo (16), foram justificadas por Washington como parte de uma estratégia regional para combater o narcotráfico.
Maduro, no entanto, sustenta que as ações ocultam intenções políticas mais profundas. Segundo ele, tratam-se de movimentos destinados a “desestabilizar” e, eventualmente, tentar derrubar o governo venezuelano — acusação já repetida em outros momentos da disputa entre os países.
Disputa narrativa em cenário internacional
Se por um lado os Estados Unidos insistem que as operações têm caráter operacional e antidrogas, o governo venezuelano reforça a tese de interferência externa. Nesse contexto, o uso de Imagine por Maduro funciona como ferramenta simbólica: posiciona o governo como defensor da paz e da autodeterminação, em contraste com o que descreve como ações militares agressivas.
O episódio também se encaixa na estratégia comunicacional chavista, que frequentemente mistura linguagem política, símbolos culturais e performances públicas para mobilizar sua base interna. Em anos anteriores, Maduro já fez referências musicais, dançou em comícios e recorreu a expressões folclóricas para reforçar sua imagem popular.
Um apelo que ecoa além da política interna
Ao cantar Imagine, Maduro tenta projetar ao público interno e externo uma mensagem de resistência pacífica. Mas o gesto também evidencia a complexidade das relações entre Caracas e Washington, marcadas por sanções, acusações mútuas e disputas geopolíticas que vão muito além da retórica musical.
Enquanto o Caribe volta a ser palco de demonstrações militares e respostas diplomáticas, a performance de Maduro funciona como mais um capítulo de uma narrativa em disputa, onde política, música e simbolismo se entrelaçam diante de um cenário regional cada vez mais tenso.
[ Fonte: CNN Brasil ]