Maduro anunciou que a antecipação tem como objetivo “estimular a economia, a cultura e a alegria do povo”. Segundo ele, a medida ajuda a manter o ânimo da população e a promover o comércio local, além de fortalecer tradições como as gaitas, os presépios, os corais de vilancicos e, claro, as hallacas — prato típico natalino venezuelano.
O presidente também afirmou que esse calendário alternativo abre espaço para eventos festivos em diferentes bairros, funcionando como um “respiro” diante das dificuldades internas e das pressões internacionais que o país enfrenta.
Política e religião no centro do debate

A decisão, porém, não veio sem provocações. Maduro aproveitou o anúncio para criticar setores da Igreja e da oposição:
“Uns tipos com sotana saíram a dizer que há Natal apenas se eles decretarem. Não, senhor de sotana, aqui quem decreta é o povo. Jesus Cristo pertence ao povo, e o Natal é do povo, que o celebra quando quiser.”
A fala reforça como a antecipação da festa também funciona como um instrumento político. Ao transformar o Natal em política pública, o governo tenta transmitir a ideia de que, mesmo em tempos difíceis, consegue oferecer momentos de celebração e coesão social.
Um balanço “positivo” segundo Maduro
Durante o anúncio, o presidente ainda disse que 2024 foi um ano “bom e bonito”, apesar das tensões com os Estados Unidos e das dificuldades econômicas. Para ele, a Venezuela estaria conseguindo “se refazer e se reconstruir”.
Assim, o Natal antecipado se apresenta não apenas como festa, mas como ferramenta de propaganda política: uma forma de reforçar a narrativa de resistência do governo em meio à crise.
Uma tradição que já dura mais de 10 anos
O que hoje parece rotina começou em 2013, quando Maduro decidiu adiantar o Natal para animar a população após a morte de Hugo Chávez. Desde então, a prática se tornou frequente, embora em datas variadas.
Confira alguns exemplos:
2015: 30 de outubro
2016: 28 de outubro
2017: 31 de outubro
2018: 29 de outubro
2019: 31 de outubro
2020: 29 de outubro
2021: 27 de outubro
2022: 30 de outubro
2023: 1º de setembro
2024: 1º de outubro
A cada ano, o governo adapta o calendário como forma de estimular o consumo, promover ações sociais e ganhar visibilidade política. Para os críticos, trata-se de mais uma manobra para distrair a população das dificuldades econômicas e sociais.
Entre a festa e a crise
Apesar da música, das luzes e da promessa de “alegria coletiva”, a Venezuela continua enfrentando problemas graves. A hiperinflação corroeu salários, a migração em massa esvaziou cidades e os serviços públicos permanecem precários. Ainda assim, a antecipação do Natal na Venezuela segue como aposta de Maduro para tentar aliviar tensões e reafirmar seu controle político.
A cada outubro (ou até antes), os venezuelanos vivem um Natal diferente, ditado pelo Palácio de Miraflores. Para uns, é um momento de festa; para outros, uma cortina de fumaça diante da crise. O fato é que a medida virou marca registrada do governo Maduro e, ao que tudo indica, continuará sendo usada como ferramenta política nos próximos anos.
[Fonte: Ámbito]